PAP0708 - Experiência sexual: contributos para um novo conceito nos estudos de sexualidade e género
Nesta comunicação apresento uma proposta de um novo conceito para os estudos de sexualidade e género, o conceito de experiência sexual, desenvolvido numa tese de doutoramento defendida em 2011 (Policarpo, 2011). Partindo das três lógicas de acção propostas por F. Dubet – integração, estratégia e subjectivação -, pretendo explorar os significados que cada uma destas lógicas assume no que respeita à vida sexual.
Cada uma pode ser descrita em três níveis diferentes. Em primeiro lugar, cada uma reporta a diversos aspectos da vida dos indivíduos (profissional, familiar, afectiva, sexual), com destaque para a sexualidade. Porém, é a forma como o indivíduo se «move» nas restantes dimensões da vida que explica os modos que a sexualidade assume, em cada lógica. Um exemplo muito evidente seria o de um indivíduo que, tendo uma forte integração profissional em determinada fase, vê a sua vida sexual reduzir-se em frequência, diversidade de parceiro/as e/ou práticas. Este nível descreve onde tudo se passa: é o das dimensões da vida pessoal.
O que nos leva a um segundo nível analítico, em cada lógica da acção: o grau de «compromisso individual» com cada uma das dimensões consideradas. Trata-se de uma medida de intensidade da adesão do actor social à lógica em questão, nos seus diversos desdobramentos (familiar, profissional, sexual). Ela pode ser «medida» em termos de grau como «forte», «média» ou «fraca».
Conforme a conjugação dos diferentes graus de intensidade do posicionamento do actor social em cada uma das lógicas (e respectivas dimensões), podemos chegar então a um terceiro nível, em que qualificamos o modo de posicionamento do actor. Em cada lógica, conforme a intensidade da adesão for «forte», «média» ou «fraca», teremos três modalidades de acção.
Deste modo, partindo da intensidade da adesão a papéis sociais, valores, grupos e comunidades (integração), nas várias dimensões da vida individual, chegamos a diversas modalidades de viver essa pertença: convencional, marginal ou alternativa. Na lógica estratégica foi possível identificar três modalidades de acção: limitadas, ocasionais ou ad hoc, e diversificadas. Finalmente, foi possível chegar a várias modalidades de subjectivação, modos qualitativos de construção do sujeito sexual e sua identidade: padrão, problematizada e singular.
Este novo conceito permitiu construir seis ideais-tipo de experiência sexual: convencional, alternativo-singular, marginal-diversificado, alternativo-diversificado, ambivalente.
Nota biográfica:
Doutorada em Ciências Sociais (Sociologia), pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL), com uma tese com o título Indivíduo e Sexualidade: a construção Social da Experiência Sexual. Mestre (pré-Bolonha) em Sociologia, pela Universidade de Coimbra; e licenciada (pré-Bolonha) em Comunicação Social e Cultural pela Universidade Católica Portuguesa. Desde 2000 leciona na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Católica Portuguesa, diversas disciplinas às licenciaturas e mestrados, com destaque para as Metodologias de Investigação das Ciências Sociais. É membro do Conselho de Coordenação do Centro de Estudos em Serviço Social e Sociologia (CESSS-UCP), vogal da Direção do Centro de Estudos de Povos de Cultura e Expressão Portuguesa (CEPCEP, UCP), investigadora do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica (CESOP, UCP) e do Centro de Estudos Comunicação e Cultura (CECC, UCP), onde co-organisou a primeira Spring School on Advanced Methodologies in Communication Studies (Abril 2012). Os seus interesses de investigação são multidisciplinares, e incluem temas como a construção do indivíduo contemporâneo; sexualidade, género, transformações da vida privada e íntima; redes e comunidades pessoais; valores e atitudes face às minorias, preconceito, discriminação, desigualdades sociais; métodos e técnicas de investigação qualitativa e quantitativa em ciências sociais. Entre as suas publicações mais recentes contam-se os livros Os Imigrantes e a Imigração aos Olhos dos Portugueses: Manifestações de preconceito e perspectivas sobre a inserção de imigrantes, (Coord. com João H.C. António, Fundação Calouste Gulbenkian, 2012) e Imigrantes Sem Abrigo em Portugal, (em co-autoria) Lisboa, ACIDI (no prelo); dois capítulos do IV Volume da História da Vida Privada, pelo Círculo de Leitores (coord. Ana Nunes de Almeida), «Sexualidades em construção: entre o público e o privado» e «Media e Entretenimento» (em co-autoria), 2011; Viver a telenovela: um estudo sobre a recepção (Livros Horizonte, 2006); Os Imigrantes e a População Portuguesa: imagens recíprocas (coord. Mário Lages, Observatório da Imigração, 2006). Coordena actualmente diversos projectos, entre os quais Jovens e Idosos: relações intergeracionais e envelhecimento activo (CEPCEP)e Personal Communities: transformations in private life, family relationships and intimacies (CESSS).