PAP0579 - Crise e reconfigurações no Brasil e no Equador
GT: "Sociedade, crise e reconfigurações na América Latina"
O objetivo deste texto é examinar como a crise que hoje grassa o mundo impactou dois países da América Latina: Brasil e Equador. Depois de várias crises ao longo da década de 1990 na periferia do mundo capitalista e no começo da de 2000 no centro, a economia dos países centrais ingressou em nova e forte crise a partir do segundo semestre de 2007. A crise representou, simultaneamente, o colapso da financeirização da economia mundial e da forma de regulação desse sistema, representada pela implementação da ideologia neoliberal; representou também a aceleração do declínio da economia dos Estados Unidos. Na essência, trata-se do desdobramento da crise mais geral, que se deflagrou no começo dos anos de 1970 nos EUA.
Num primeiro momento, a crise não trouxe maiores transtornos para a América Latina. Mas, a partir de determinado momento, o impacto da crise financeira e da recessão nos países centrais sobre a região afetou diretamente a economia real latino-americana. Todos os países da América Latina sofreram esse impacto da crise. No entanto, alguns deles estavam melhor aparelhados política e economicamente para defender-se da crise e assim amenizar seus efeitos internos, dentre eles o Brasil e o Equador.
A economia brasileira estava em pleno processo de expansão, induzida pelas mudanças ocorridas no governo Lula, quando foi surpreendida por essa nova crise internacional. É possível afirmar que, durante essa crise, o governo brasileiro contava com condições mais favoráveis do que as que dispunha nos anos de 1990 para adotar medidas no sentido de proteger e fortalecer a economia nacional. No entanto, como demonstraremos no texto, as condições adversas também eram muito fortes.
Na época, o Equador havia recém iniciado um processo de transformação com base no programa implementado pelo governo de Rafael Correa. Essa transformação, no entanto, defrontava-se com vários obstáculos, dentre os quais se destacava a dolarização da economia. Esse limite bloqueava a capacidade de o governo praticar políticas econômicas. Apesar disso, a economia equatoriana foi uma das que melhor enfrentou a crise. A combinação entre o elevado preço do petróleo e as medidas adotadas pelo governo para aumentar a apropriação nacional e pública da renda do petróleo contribuíram para enfrentar esse desafio.
O que existe de comum entre os dois países é o fato de seus respectivos governos haverem reconstruído parte dos mecanismos de ação estatal sobre a economia e promovido o fortalecimento do mercado interno. Investimentos públicos e gastos sociais combinados com crédito barato e abundante constituíram a receita para enfrentar a crise nos dois países.
Palavras-chave: crise internacional, reconfigurações, Brasil, Equador
Nilson Araújo de Souza possui graduação em Economia pela Universidade Federal do Pará (1974), mestrado em Economia Rural pela Universidade Federal do Rio do Rio Grande do Sul (1976), doutorado em Economia pela Universidad Nacional Autónoma de México (1980) e pós-doutorado em Economia pela Universidade de São Paulo (1985). Atualmente, é professor visitante sênior CAPES da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). Tem experiência em docência e pesquisa na área de Economia, com ênfase em Economia Mundial, Economia Latino-Americana e Economia Brasileira Contemporâneas. Nessas áreas, publicou dezenas de livros, ensaios e artigos. Seus mais recentes livros são: Economia Brasileira Contemporânea - de Getúlio a Lula (Atlas, 2007) e Economia Internacional Contemporânea - da depressão de 1929 ao colapso financeiro de 2008 (Atlas, 2009)