PAP0775 - Entre a defesa e o ataque, os imigrantes do futebol português
Num processo que não é novo, o futebol português participa na dinâmica global de forte competição pela procura de jogadores com características físicas, técnicas e táticas capazes de materializar em vitórias a ambição dos clubes, adeptos e patrocinadores. Em distintas escalas, essa procura tem desencadeado um intenso processo migratório internacional caracterizado, sobretudo, pela sua complexidade assente, em grande parte, na diversidade de origens e destinos migratórios. A observação dos plantéis dos principais clubes europeus, muitos deles constituídos, quase exclusivamente, por jogadores estrangeiros, é reveladora da importância que assume a migração internacional de futebolistas, sendo reflexo de uma cultura desportiva na qual o trabalho atlético atravessa fronteiras políticas, culturais, étnicas, e económicas
Também em Portugal os futebolistas estrangeiros são parte integrante e relevante do cenário futebolístico. Nomes anónimos ou mediáticos, os futebolistas estrangeiros representam mais de metade da totalidade dos jogadores da Primeira Liga, sendo que há clubes nos quais os jogadores nacionais ocupam lugar meramente residual. Se para alguns protagonistas do futebol português esta é uma consequência inevitável do funcionamento das leis de oferta e procura do mercado futebolístico, outros apelam a uma atitude defensiva invocando que os futebolistas estrangeiros retiram espaço laboral aos jogadores nacionais. A presente comunicação visa caracterizar o fluxo imigratório do futebol português, determinando o volume, a origem, as reacções e consequências desse processo, considerando ainda que este fenómeno é determinado por dinâmicas de globalização bem como por especificidade da sociedade portuguesa. Esta análise terá em consideração as épocas futebolísticas mais recentes.
- NOLASCO, Carlos

Carlos Nolasco, doutorando em Sociologia pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra/Centro de Estudos Sociais, com uma dissertação na área das migrações de trabalho desportivo. Licenciado em Sociologia e Mestre pela FEUC. Profissionalmente foi assistente de investigação no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra entre 1993 e 2002. Docente do Instituto Piaget desde 1997. Entre 2002 e 2005 exerceu o cargo de Presidente da Direcção da Escola Superior de Educação Jean Piaget de Viseu. Tem como áreas de interesse a sociologia do desporto, migrações e direito e globalização.
PAP1587 - Futebol e migrações: primeiras anotações
Apesar do peso descomunal que o futebol ocupa na vida quotidiana, económica, política e cultural das sociedades, sendo que o futebol, enquanto desporto-espetáculo (Bourdieu, 1985) atua como arena pública no processo de construção das identidades culturais em diversas instâncias: regionais, nacionais, supra-nacionais, geracionais, de classe, de claques, desportistas, organizações, burocracias, ciência e tecnologia. A vida de trabalho que os jogadores levam numa sociedade globalizada ainda vem sendo pouco conhecida, sobretudo dos jogadores migrantes e que “rodam” pelo mundo.
- CRISTAN, Mara Lúcia

Mara Lúcia Cristan de Lomba-Viana
Luso-Brasileira, nascida na cidade de Ribeirão Preto, Estado de São Paulo, Brasil, em 28.02.1965.
Ao completar os seus 47 anos, a Profa. Doutora Mara Cristan, se aposentou de professora efetiva na UFES-Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória-ES (Brasil), com catorze anos de serviço e afecta ao Centro de Educação Física e Desportos, de que foi Vice-Directora e Decana do Depto. de Ginástica, onde leccionou Sociologia do Desporto, Educação Física Comunitária, Estudos do Lazer e Recreação (Animação Sócio-Cultural), tendo sido “Professora Homenageada em 2004 e 2005”.
Actualmente é investigadora especializada na área da Ciência do Desporto (Sociologia do Desporto e do Lazer).
Participou ainda como convidada na co-orientação de Mestrados e Doutoramentos, ainda como docente das unidades curriculares de Sociologia do Desporto, de Sociologia do Lazer, de Introdução às Ciências Sociais e ainda de Teorias e Metodologias de Pesquisa Científica em várias universidades portuguesas, tendo merecido de 2005 a 2011, a atribuição de uma bolsa para investigação pela FCT-Fundação para a Ciência e Tecnologia, do Ministério da Ciência e do Ensino Superior de Portugal e sido distinguida em Agosto de 2009, com o VI Prémio do Consejo IberoAmericano en Honor a la Calidad Educativa 2009”, com atribuição de um Mestrado em Gestión Educativa e um Doutoramento Honoris Causa (Lima, Peru).
PAP0694 - Futebol, Racismo e Eurocentrismo: Os media portugueses e o mundial na África do Sul
O debate teórico em torno do fenómeno do futebol tem envolvido investigadores de diferentes áreas. A persistência e continuidade dos actos violentos nos jogos de futebol atraiu a atenção inicial dos autores que se centraram, quase exclusivamente, na questão da violência no contexto britânico.
A partir da última década do século XX, os estudos estendem-se a outras realidades empíricas com a publicação dos primeiros trabalhos sobre as culturas de adeptos na Europa do Sul. Num plano secundário, surgiram, simultaneamente, diversas investigações que procuraram abordar a questão do racismo e dos movimentos anti-racistas no contexto do futebol.
Porém, este tipo de análise evidencia alguns limites críticos que impedem o avanço do debate teórico. De um modo geral, as manifestações racistas no contexto do futebol têm sido atribuídas a grupos de extrema-direita que, de uma forma mais ou menos organizada, veriam nos estádios uma arena privilegiada para expressar as suas ideologias. Numa tentativa de combater este tipo de manifestações - comummente atribuídas a ‘marginais’ e ‘extremistas’ - inúmeras iniciativas de ‘combate ao racismo’ têm sido desenvolvidas, em diversos países europeus, abrangendo diferentes actores. No entanto, simultaneamente, de uma forma mais ou menos subtil, as visões eurocêntricas e racistas são constantemente difundidas pelos organismos que tutelam o futebol, pelos media, pelos dirigentes e pelos adeptos.
Esta comunicação tem como objectivo analisar de que forma é que o futebol constitui um poderoso veículo de produção e perpetuação de perspectivas eurocêntricas e racistas, presentes nos discursos e nas práticas dos diversos actores, nomeadamente, nos media.
Partindo da análise das publicações dos media portugueses a propósito do campeonato mundial realizado na África do Sul, pretende-se mostrar que o futebol constitui não só uma metáfora da sociedade, como também produz, reproduz e reifica determinados valores e normas sociais contribuindo assim para uma naturalização das identidades culturais. Tendo sido o primeiro evento do género realizado no continente africano, desde cedo se assistiu a um discurso marcadamente eurocêntrico, que iria, ainda que no plano futebolístico, pôr em confronto a ‘modernidade’ e o ‘tradicional’, a ‘razão’ e a ‘magia’, ganhando assim uma nova visibilidade um discurso altamente enraizado na herança colonial. Este trabalho pretende contribuir para um alargamento do debate teórico nos estudos sobre futebol e sociedade que, de um modo geral, têm abordado a questão do racismo meramente sob uma perspectiva durkheimiana, isto é, como um mero reflexo ou espelho das relações sociais ou sob uma perspectiva historicista, assente na ideia de que o racismo é um fenómeno marginal e residual nas sociedades europeias e, consequentemente, nos estádios de futebol.
- ALMEIDA, Pedro Sousa de

Pedro Sousa de Almeida é licenciado em Antropologia pela Universidade de Coimbra. Realizou o Mestrado, na área da Sociologia, no Instituto Superior Miguel Torga de Coimbra onde exerceu, entre 2002 e 2010, funções de docência. Actualmente frequenta o programa de doutoramento em ‘Democracia no Século XXI’, do Centro de Estudos Sociais. Privilegiando o futebol como via de acesso ao estudo da própria sociedade, o seu trabalho de investigação tem-se centrado na abordagem crítica do fenómeno do racismo e eurocentrismo nas sociedades contemporâneas, nas inter-relações entre futebol e neoliberalismo e no papel do futebol em contextos pós-conflito.
Violência e Euro 2004: a centralidade do futebol na cultura popular, publicado pelas edições Colibri, em 2006, constitui a sua principal publicação.
PAP0616 - O MUNDIAL DE FUTEBOL DE 2014 E A SUSTENTABILIDADE: ALGUMAS ABORDAGENS SOBRE O SÍTIO OFICIAL DO GOVERNO FEDERAL BRASILEIRO – O PORTAL DA COPA
Em outubro de 2007, a Federação Internacional de Futebol Associação (FIFA) – entidade que regulamenta a prática do futebol em todo o mundo – elegeu o Brasil como sede da XX Copa do Mundo FIFA, evento global a ser realizado nos meses de junho e julho de 2014. Quatro anos após esse anúncio, o país depara-se ainda com alguns problemas ligados a infra-estruturas (transportes e acessibilidades), com atrasos na construção e/ou reforma de estádios, com a polêmica em torno da liberação de recursos públicos para a realização das obras e com a ausência de uma discussão mais séria em torno da sustentabilidade do evento.
Diante desse cenário, o tema e objeto desta comunicação é analisar como vem sendo apresentada a questão da sustentabilidade nos discursos do comitê de organização local do evento publicados no Portal da Copa (http://www.copa2014.gov.br/), sítio oficial do Governo Federal Brasileiro. Com versões de texto em três idiomas (português, espanhol e inglês), o veículo procura ser um porta-voz das autoridades brasileiras na divulgação de notícias e de informações sobre a organização da Copa do Mundo de 2014. O objetivo do estudo é verificar como os principais conceitos relacionados à sustentabilidade (como desenvolvimento sustentável, ecoeficiência, responsabilidade socioambiental e governança corporativa, por exemplo) comparecem no discurso institucional do Portal da Copa e como algumas questões polemizadas pelo discurso dos media são retratadas nesse espaço.
Partimos da hipótese de que as questões vinculadas à sustentabilidade, apesar de nominadas em diversas páginas do Portal da Copa, não têm sido levadas a sério na organização do Mundial de Futebol de 2014. Desse modo, o discurso do Comitê Organizador Local aponta para ações que, à primeira vista, diferem da práxis atual. O conceito do “Triple Bottom Line”, ratificado pela ONU (Organização das Nações Unidas) e elaborado pelo economista britânico John Elkington – o qual defende a viabilidade econômica do negócio, o cuidado com o meio ambiente e a responsabilidade social (Profit, Planet, People) – não parece estar sendo considerado na organização do evento esportivo.
Para dar conta dessa análise, colocaremos em perspectiva o conceito de ecosofia definido pelo pensador francês Félix Guattari (segundo o qual o equilíbrio ambiental deveria incluir a subjetividade humana, o meio-ambiente e as relações sociais) e ampliado pelo sociólogo francês Michel Maffesoli (para quem algumas práticas cotidianas da contemporaneidade estariam recuperando valores naturais e arcaicos). A metodologia de análise a ser aplicada nesta comunicação deriva da aplicação de alguns conceitos advindos da Análise do Discurso de linha Francesa (AD), desenvolvidos por Émile Benveniste e Mikhail Bakhtin.
- MARQUES, José Carlos

Prof. Dr. José Carlos Marques
Docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista (UNESP - Brasil). É Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP - Brasil) e Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP - Brasil). Licenciou-se em Letras (Português-Francês) pela Universidade de São Paulo. Ocupa atualmente, pelo segundo mandato consecutivo, o cargo de Diretor Administrativo da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação). É autor do livro "O futebol em Nelson Rodrigues" (São Paulo, Educ/Fapesp, 2000) e de diversos artigos em que discute as relações entre comunicação e esporte. É líder do GECEF (Grupo de Estudos em Comunicação Esportiva e Futebol - UNESP) e integrante do LUDENS (Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol e modalidades Lúdicas - USP).
PAP0913 - O determinismo cultural na prática esportiva: estudo dos casos do futebol no Brasil e do rúgbi na Nova Zelândia
O Brasil é aclamado, em todo o mundo, como o “país do futebol”. Tal reconhecimento ocorre, primordialmente, pelos excelentes resultados obtidos pelas seleções brasileiras de futebol nas Copas do Mundo de 1958, 62, 70, 94 e 2002. Além do sucesso representado por essas conquistas, a forma dos brasileiros praticarem o esporte futebol é admirada mundialmente pela habilidade de seus jogadores e pela beleza plástica com que suas equipes praticam o esporte. A Nova Zelândia, por outro lado, é reconhecida universalmente pela excelência de sua seleção nacional de rúgbi, os All Blacks. Em sete disputas da Copa do Mundo do esporte, a seleção neozelandesa conquistou o título em duas oportunidades (1987 e 2011). Muito mais do que os triunfos obtidos, a mítica dos All Blacks consagrou a Nova Zelândia como o principal país do esporte. O objetivo deste trabalho é analisar, de forma superficial, as relações existentes entre a formação cultural do brasileiro e do neozelandês com o sucesso obtido pelo futebol, no Brasil, e o rúgbi, na Nova Zelândia. É nossa intenção comprovar que os aspectos culturais são fundamentais para que, na prática desses esportes, os brasileiros tenham sucesso no futebol e os neozelandeses no rúgbi. Tal suspeita se baseia nas ideias de T. S. Eliot que afirma que “a cultura do individuo depende da cultura de um grupo ou classe, e que a cultura do grupo ou classe, e que a cultura do grupo ou classe depende da cultura da sociedade a que pertence este grupo ou classe”. Em função do exposto acima, pretendemos mostrar que, na formação cultural dos brasileiros e dos neozelandeses, estão presentes elementos que, no caso brasileiro favorecem a prática do esporte futebol; e, no caso neozelandês, estimulam o jogo esportivo e as características do rúgbi enquanto esporte. A educação, segundo Eliot, funciona como o elemento propagador da cultura. Cultura que se compõe de vários elementos e, no entender do autor, “vai da habilidade rudimentar e do conhecimento à interpretação do universo e do homem pela qual vive a comunidade”. Determinadas modalidades esportivas, por suas características peculiares, se adaptam melhor à formação cultural de sociedades peculiares. É essa relação – formação cultural x prática esportiva – que pretendemos investigar através do estudo dos casos Brasil-futebol e Nova Zelândia-rugbi.
- JUNIOR, Ary José Rocco
PAP0902 - Para uma sociologia da condição adepta (de futebol) em Portugal
Num texto já do presente ano (2011) intitulado “Le douzième homme”,
Christian Bromberger demora-se na identificação e análise de adeptos
de perfis variados: os “ultras” e os “oficiais” (respeitáveis, comedidos,
avessos à violência). Este exercício ao mesmo tempo encontra e
desencontra um dos pressupostos que, em trabalho com alguns anos
(2008), nos levou até à condição adepta (de futebol) em Portugal. Se,
com Bromberger, a considerámos enquanto espaço plural, nos tipos,
perfis, práticas, normatividades, quadros de interacção e
representações que compreende, contra este autor, rechaçámos (ao
menos parcialmente) a cedência normativa que consiste em fechá-la
em torno dos “verdadeiros adeptos”, sejam ultras ou oficiais ou doutro
género qualquer, apreendendo-a através dum indicador de intensidade
da afinidade clubista e da tipologia de vinculação clubista que esse
indicador permitiu construir.
Na comunicação ora proposta visa-se revisitar criticamente este
dispositivo e a forma teórica que o baliza, não prescindindo de
aprofundar o princípio de construção de objecto sociológico que esteve
na sua origem: o de que a restituição das realidades sociais não deve
rasurar a pluralidade que as constitui. A comunicação abrir-se-á pois a
dois momentos diferenciados mas sequenciais: 1) um primeiro de
natureza analítica, em que se informará e discutirá as propriedades
lógicas e empíricas do artefacto teórico-metodológico aplicado na
pesquisa citada; 2) um segundo de natureza conjectural, em que,
entroncando nos desenvolvimentos recentes que a sociologia à escala
individual conheceu e nas novas possibilidades de objectivação que
rompem da sociologia pragmática, se equacionará um conjunto de
hipóteses que desafiam a pesquisa no domínio da sociologia da
condição adepta. Na verdade, estará em causa (diga-se: mais
complementarmente do que alternativamente) dar conta das diferenças
e clivagens que atravessam essa condição “dentro” de cada sujeito
vinculado e nos “investimentos de forma” para que é compelido.
Trata-se, noutros termos, de trazer para o centro da objectivação
sociológica da “condição adepta” nada mais nada menos do que o
segmento da sociologia contemporânea mais promissora que até agora
dela se manteve alheada. Com isso vincando, finalmente, uma posição
de amplo alcance: todos os objectos sociológicos, seja qual for o
domínio empírico que os abranja, têm necessariamente de se submeter
à teoria sociológica geral e aos respectivos progressos.
- NUNES, João Sedas

- CHAVES, Miguel

João Sedas Nunes, doutorou-se em Sociologia da Cultura em 2008 com uma tese sobre Culturas Adeptas do Futebol. É docente na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, investigador do CESNOVA e director da revista Forum Sociológico. As suas áreas de especialização recobrem diferentes polaridades empíricas: sociologia da inserção profissional e do trabalho; sociologia do futebol; sociologia da juventude e sociologia da cultura.
Miguel Chaves é professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e investigador do CESNOVA. Enquanto investigador dedicou parte do seu percurso ao estudo da exclusão social, do desvio e da marginalidade, tendo produzido vários textos sobre estas matérias, dos quais se destaca o livro Casal Ventoso: da Gandaia ao Narcotráfico. Actualmente, desenvolve e coordena vários estudos centrados na inserção profissional e nos estilos de vida de jovens altamente qualificados, tendo neste âmbito publicado o livro Confrontos com o Trabalho entre Jovens Advogados: as Novas configurações da Inserção Profissional, bem como diversos artigos.