PAP0623 - Uma análise das relações de rivalidade e pertencimento entre gangues juvenis em Belo Horizonte - Brasil
Este estudo propõe uma análise das relações entre os integrantes de gangues juvenis rivais, especialmente no que tange a autoimagem que constroem coletivamente, coesão e visão concebida acerca dos rivais, e como estes se associam ao pertencimento a um determinado território.
Para realizar tal tarefa, foi realizado um estudo de caso composto de seis meses de observação participante e entrevistas no Aglomerado Santa Lúcia, localizado na região Centro-Sul de Belo Horizonte, Brasil, e considerado como um dos territórios mais violentas da cidade.
Pretendeu-se, portanto, a observação do processo de entrada e associação dos integrantes, e a formação das relações sociais que se estabelecem ao redor destes grupos, que muitas vezes possuem uma existência mais longa que seus próprios membros, não raro perpetuando rivalidades e conflitos iniciados por gerações anteriores, mas desde já fortemente associados aos territórios que ainda ocupam. Durante o trabalho de campo, ao serem questionados sobre os motivos originários destes ciclos de conflitos violentos, os jovens neles envolvidos apresentavam justificativas ligadas ao desenrolar da própria rivalidade, como o envolvimento para vingar a morte de um parente ou amigo; ou ainda, uma série de características vagas e difusas à respeito do grupo identificado em outro território, como se todos os habitantes daquela localidade partilhassem de traços específicos.
Ao verificar que as mesmas categorias de justificativas foram utilizadas por ambos as gangues, como características imanentes de cada afiliação territorial, deles mesmos e dos rivais, buscou-se analisar o fenômeno primariamente através do olhar do interacionismo simbólico, em uma tentativa de compreender como as complexas cadeias de conflitos violentos, mudanças na forma de se apresentarem e destacarem certas características diante de membros do próprio grupo e de rivais, e construção das linhas de ações coletivas são permeadas pela questão do pertencimento a um território específico.