PAP1482 - Doença psiquiátrica e Itinerários terapêuticos – contributos para uma reflexão sobre a reconfiguração dos cuidados formais de saúde mental
Pese embora uma legislação pioneira, que desde a década de 60 preconiza um sistema de cuidados psiquiátricos de proximidade, integrados no seio da própria comunidade – por contraposição ao modelo tradicionalmente vigente, centrado nas grandes instituições psiquiátricas (“totais”) –, Portugal só muito recentemente iniciou o seu processo de desinstitucionalização. Trata-se de um processo de reconfiguração dos serviços formais de saúde mental que se tem traduzido num desigual andamento dos objectivos estabelecidos pelo Plano Governamental. Com efeito, tem-se assistido mais rapidamente ao desmantelamento dos hospitais psiquiátricos do que à criação dos correspondentes serviços alternativos na comunidade. No actual contexto de crise financeira (como se sabe, já traduzida em significativos retrocessos do Estado Social), é muito elevado o risco de que o processo de desinstitucionalização em curso venha a ser interrompido ou venha a concretizar-se de forma muito incompleta, potenciando o aprofundamento da vulnerabilidade das pessoas com doença mental e suas famílias. É este um risco tanto mais elevado quanto se sabe que, historicamente, estamos perante um domínio tendencialmente desvalorizado pelo investimento estatal, mesmo em tempos de relativa estabilidade económica. Assim sendo, perante um tal enquadramento, é acrescida a responsabilidade da Sociologia quanto à realização e disseminação de estudos empiricamente sustentados, capazes de contribuir para uma profícua reflexão sobre os desafios em causa. É precisamente neste sentido que se propõe a presente comunicação. Partindo dos resultados de um estudo recentemente concluído no Centro de Estudos Sociais, analisam-se os itinerários terapêuticos de um conjunto de homens e mulheres com diagnósticos de doença mental (esquizofrenia e doença bipolar). Tendo como referência as suas primeiras experiências de institucionalização hospitalar, a análise faz-se percorrendo as seguintes fases: fase que antecede o 1º internamento; fase coincidente com o 1º internamento; fase posterior ao 1º internamento. Do estudo empreendido, decorrem importantes conclusões quanto às características das modalidades de acompanhamento actualmente existentes, bem como à forma como estas se articulam (ou não) entre si. Numa última análise, pela forma como permite identificar quer os aspectos mais negativos, quer os aspectos mais positivos do modelo vigente, a análise dos itinerários individuais permite-nos escrutinar um conjunto de ilações para o futuro, não apenas sobre os caminhos que se devem abandonar, como também sobre os caminhos que se devem manter/desenvolver, como, finalmente, sobre os caminhos que se devem reinventar ou até mesmo inventar de novo no sentido de incrementar o mais possível os níveis de bem-estar e de autonomia de quem tem uma doença mental.
PAP1221 - Educação Sexual em contextos heterogéneos: Instituições de acolhimento de crianças e jovens de Braga
Como quaisquer outros jovens a viverem com as suas famílias, os que foram institucionalizados sentem-se agradavelmente melhor, quando encontrem quem mostre interesse por si e pelo que digam, sem se sentirem desvalorizarem por terem ultrapassado o risco sexual e/ou sofrido assédio, abuso, negligência e maus tratos.
Nesse sentido, nas sociedades ocidentais, para o domínio da Educação Sexual, continuam a ser analisados e debatidos programas modelares de formação de adultos em escolas (Barragán, 1991; Kirby, 2007; Kirby et al., 2007), e em instituições de acolhimento de crianças e jovens (Daly, 2004; Garcia Ruíz, 2009).
Na equipa multidisciplinar da Universidade do Minho – Instituto de Educação, realizamos uma investigação-ação, em Braga, junto de escolas públicas e instituições religiosas de acolhimento, com as seguintes ações ordenadas, oficializados acordos de cooperação entre instituições (ação 1): (1) analise/interpretação de espírito de missão/finalidades e crenças, valores e ideologias, presentes nos discursos e nos processos de trabalho formativo/educativo das estruturas e organizações locais, com projetos socioeducativos e individuais explícitos (ação 2); (2) levantamento de potencialidades, necessidades e formação de adultos implicados e utentes (crianças e jovens), de acordo com nível de desenvolvimento profissional e psicossocial e etário, respetivamente, conhecidas as retaguardas familiar e institucional (ações 3 e 4); (3) caracterização de dinâmicas escolares e institucionais, a partir da análise dos dados quantitativos e qualitativos recolhidos (ação 5); (4) diagnóstico biopsicossocial, ponto de chegada/partida para a planificação e implementação de ação/programa de Educação Sexual, uma intervenção heterogénea (com a colaboração de unidades de saúde pública) (ações 6 e 7); (5) registo e avaliação de dados do programa de intervenção, por meio de instrumentos adequados a estratégias e técnicas utilizadas e posterior triangulação de análise quantitativa e qualitativa (ações 8, 9 e 10); (6) avaliação global, com base nos resultados (ação 11); e (7) formulação de orientações futuras (ação 12).
No Congresso, iremos apresentar dados iniciais e exploratórios das ações 1 e 2, relativos às instituições de menores. A possível eficácia de intervenções planeadas será explorada, por análise de congruências, discrepâncias e da sua superação nessas realidades, consumadas orientações e sugestões a aplicar em organismos religiosos e educativos similares da região (ação 12).
Aposta-se na capacitação bilateral e dialética (formadores/formandos; adultos/crianças), com recurso a metodologias diversas e complementares, que pretendemos desenvolver um projeto de Educação Sexual não para todos, esperando-se ir ao encontro de modelos viáveis de educação para o amor e sexualidade saudável.
Judite Maria Zamith Cruz - doutorada em psicologia, mestre em educação e mestre em ciências cognitivas, é professora auxiliar no Instituto de Educação, da Universidade do Minho, onde realiza formação em domínios de desenvolvimento na infância e adolescência, motivação e dificuldades de aprendizagem, em licenciatura e mestrados. Trabalha em projeto de educação sexual, em contexto de acolhimento de crianças e jovens. Tem experiência clínica, em necessidades especiais (sobredotação com perturbação de Asperger) e em atendimento neuropsicológico a doentes de Alzheimer. É autora de livros e publicou artigos nas áreas psicossociais, por metodologias qualitativas: Grounded Theory, Histórias de Vida e Análise de Discurso.