PAP0897 - Ordem da interacção e corpora de gravações: a análise da conversação como paradigma teórico-metodológico
Gravar quem, onde, quando, como, para evidenciar e/ou demonstrar o quê? Qual é o valor descritivo e explicativo em sociologia de um corpus de gravações de interacções verbais (Binet, 2011)? Qual é o lugar da teoria no trabalho de transcrição e quais são os programas computacionais que auxiliam as tarefas do transcritor (Monteiro, 2011)? Quais são os fenómenos sociais observáveis e analisáveis num tal corpus (ten Have, 2005)? Como conciliar uma investigação de escala micro-analítica com a orientação holística da sociologia (Erickson, 2004; Cicourel, 2008; Binet, 2011)?
Surgida no quadro da sociologia americana, nos anos 60 do século XX, a análise da conversação (Sacks, 1992) pretende responder de forma argumentada a estas perguntas, apoiando-se para tal num já rico patrimonio de pesquisas empíricas, na origem de uma vasta literatura científica (Goodwin & Heritage, 1990). Na Europa, os linguístas foram os primeiros a abrir o seu campo investigativo aos contributos desta corrente interaccionista de filiação etnometodológica (Kerbrat-Orecchioni, 1990), o que acabou por travar, pelo menos até uma data recente, a difusão entre os sociólogos europeus de um corpo de teoria e de método susceptível de configurar um paradigma que renova e enriquece vários domínios de investigação sociológica (Rodrigues, 2001).
A nossa comunicação, que pretende contribuir para o pleno reconhecimento da análise da conversação como paradigma de investigação sociológica, apoiar-se-á numa pesquisa desenvolvida em coparticipação (Bartunek & Louis, 1996) com mais de vinte interventores sociais da Rede Social do Concelho de Sintra, que colaboraram na recolha de um corpus de gravações de atendimentos realizados nos seus serviços de acção social (Binet & Sousa (de), 2011). Os conhecimentos alcançados nesta pesquisa constituem uma base solida para travar uma discussão acerca da integração da análise da conversação no desenho e na operacionalização das investigações, no domínio da sociologia das profissões e dos estudos organizacionais (Drew & Heritage, 1992; Peräkylä & Vehviläinen, 2003; Arminen, 2005; Sarangi, 2005; Mondada, 2006; Rawls, 2008; Koester, 2010; etc.).
Bolseiro da FCT (SFRH / BD / 63799 / 2009), Michel Binet elabora uma
Tese de Doutoramento em Antropologia na Universidade Nova de Lisboa
(FCSH), na confluência de três áreas disciplinares (antropologia,
linguística e sociologia), sob a orientação de Adriano Duarte
Rodrigues. Membro do Centro de Linguística da Universidade Nova de
Lisboa (CLUNL) e colaborador do Centro Lusíada de Investigação em
Serviço Social e Intervenção Social (CLISSIS), a sua Tese, que se
situa no domínio de uma "Micro-Etnografia", tem por quadro teórico e
metodológico a Análise da Conversação etnometodológica e por base
empírica um Corpus de mais de 50 horas de gravações de interacções
verbais entre interventores sociais e utentes de serviços sociais do
Concelho de Sintra (Corpus ACASS), recolhido com a coparticipação de
mais de 20 profissionais da Rede Social de Sintra, em parceria com
Isabel de Sousa (CLISSIS).
Mestre em Ciências da Linguagem e membro do Centro de Linguística da
Universidade Nova de Lisboa (CLUNL), David Monteiro colabora na
análise do Corpus ACASS, estudando a organização sequencial dos
atendimentos e a argumentação na fala-em-interacção.