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©Associação Portuguesa de Sociologia – Lisboa, 2012
Associação Portuguesa de Sociologia
PAP1115 - O Bio-gráfico: desenvolvimento, aplicação e contributos do instrumento na investigação qualitativa
Esta proposta de comunicação pretende descrever um instrumento qualitativo de apoio à recolha de dados – o bio-gráfico. Desenvolvido a partir da necessidade de dar suporte à realização de entrevistas focadas na reconstituição de informação passada, o bio-gráfico consiste numa representação gráfica de informação histórica de um indivíduo, sendo composto por várias dimensões organizadas sobre uma linha cronológica central, permitindo estruturar os discursos de cada entrevistado e constituindo-se uma base privilegiada para o desenvolvimento da narrativa.
A construção do instrumento teve origem em pressupostos da Psicologia e da Sociologia, em particular nas metodologias usadas no domínio do comportamento desviante (Agra e Matos, 1997) e no modelo da interdependência dos sistemas de vida (Curie, 2000), o que explica a importância atribuída à experiência individual, à dimensão processual dos acontecimentos e ao significado construído pelos indivíduos.
O bio-gráfico foi concebido no âmbito de um estudo sobre envelhecimento e trabalho (Ramos, 2010), incluindo cinco dimensões de análise: percurso profissional; história de saúde; percurso escolar; história familiar; meio social e geográfico. O instrumento foi usado em outros contextos de investigação, como por exemplo na reconstituição de trajectórias de desempregados de longa duração e de trabalhadores temporários,com vista à identificação de perfis. Houve ainda lugar à sua adaptação para contextos específicos de investigação, como é o caso de um estudo sobre análise de projectos de concepção de postos de trabalho (Gil-Mata, Lacomblez & Bellies, 2011). Aqui, o instrumento é centrado sobre um projecto e não sobre um indivíduo, sendo apelidado de projectográfico (Gil-Mata & Lacomblez, 2010), assumindo-se como representação partilhada da evolução do projecto e incluindo também cinco dimensões: espaço de trabalho; meios de trabalho; organização do trabalho; reflexão e elaboração.
A utilização do instrumento tem mostrado vantagens a diferentes níveis: i) na condução de entrevistas, já que este serve de orientação à narrativa dos sujeitos; ii) na validação e restituição dos dados, contribuindo para a validade dos estudos; iii) no cruzamento de dados hetero e autobiográficos, possibilitando a triangulação de fontes de informação; iv) na visualização dos dados, permitindo uma ilustração da trajectória pessoal ou projecto em estudo, permitindo a análise temporal ou histórica dos mesmos; v) no interface entre o sujeito e os dados, ao possibilitar, ao próprio indivíduo, através do confronto com o registo gráfico, repensar a sua trajectória, atribuir novos significados e construir novas relações entre acontecimentos.
Este instrumento constitui não só um suporte para a recolha de dados mas também um elemento de intervenção em si, dada a importância deste exercício de atribuição de significados e sentido às vivências dos indivíduos.
- RAMOS, Sara

- MATA, Rita Gil
Sara Ramos doutorou-se em Psicologia, na especialidade de Psicologia do Trabalho pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação,da Universidade do Porto, em 2006. É Professora Auxiliar no Departamento de Recursos Humanos e Comportamento Organizacional no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, desde 2007. As suas áreas de ensino incluem métodos de investigação, métodos qualitativos, psicologia do trabalho e recursos humanos. Os trabalhos de investigação mais recentes têm-se centrado na relação entre saúde, idade e trabalho mais especificamente na temática do envelhecimento e trabalho.
PAP1496 - Práticas Familiares, Rituais e Imaginação Sociológica. Dilemas e desafios na adaptação da ‘entrevista de episódio’ a múltiplos episódios.
No ano em que se assinalam 100 anos sobre a publicação de 'As Formas Elementares da Vida Religiosa' (1912), procuramos nesta comunicação demonstrar a actualidade, operacionalidade e proficuidade das teses durkheimianas em torno do estudo do ritual, a partir da análise empiricamente ilustrada das virtualidades e limitações da opção metodológica por uma forma particular de entrevista – ‘a entrevista de episódio’ – utilizada para uma aproximação à família contemporânea enquanto «categoria realizada» (Bourdieu, 1993).Como ir além do discurso dedutivo e generalista das teses da desinstitucionalização, individualização e risco que desenham um diagnóstico de instabilidade, diluição, fragilidade ou até mesmo desaparecimento da família contemporânea (Brannen e Nielsen, 2005)? Como captar empiricamente esta realidade de um modo que dê, simultaneamente, conta das suas transformações recentes e do significado que assume para os actores, e que permita uma compreensão ampla, plural e actual das inúmeras evidências pelas quais a família se nos apresenta na contemporaneidade? Orientados por esta questão de partida, optámos por estudar as «práticas familiares» (Morgan 1996, 1999), especificamente, os rituais familiares (Bossard e Boll, 1950; Wolin e Bennett, 1984).Argumentamos nesta comunicação que a opção por uma abordagem metodológica qualitativa, intensiva e em profundidade, assente principalmente no recurso a uma entrevista de episódio (Flick, 1997; 2005 [2002]), permitiu captar experiências e significados associados a práticas e representações pluridimensionais dos rituais familiares enquanto processos interactivos e significantes, simultaneamente localizados na cultura, história e biografia pessoal, decisivos para estabelecer e desenvolver o argumento principal da tese a que chegámos, o que iremos ilustrar com exemplos retirados da prática empreendida. Ao partir do pressuposto que as experiências dos indivíduos são armazenadas e recordadas na forma de conhecimento semântico (conceitos e inter-relações entre conceitos) e de narração de episódios (experiências, situações e circunstâncias concretas), a entrevista de episódio permite a recolha de dados (da parte do investigador) sob a forma de uma narrativa contextualizada (pelo entrevistado), o que traz maior densidade ao discurso, uma vez que os significados estão mais próximos das experiências e do contexto que os gera. Julgamos que um maior conhecimento por parte da comunidade científica portuguesa das vantagens da entrevista de episódio em alternativa à entrevista em profundidade ou semi-estruturada poderá contribuir para, do ponto de vista da prática da investigação, aumentar a eficácia, eficiência e rigor dos métodos e técnicas de pesquisa por referência a um enquadramento teórico específico e, ao mesmo tempo, promover o debate interdisciplinar sobre a “prática da razão sociológica”.
- COSTA, Rosalina Pisco

Rosalina Pisco Costa é professora auxiliar na Universidade de Évora e investigadora no CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade. É licenciada e mestre em Sociologia na área de especialização ‘Família e População’ pela Universidade de Évora. Em 2011, depois de ter sido bolseira FCT, Gulbenkian e Visiting Student no Morgan Centre for the Study of Relationships and Personal Life da Universidade de Manchester, concluiu o Doutoramento em Ciências Sociais (Sociologia) no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL), com a tese Pequenos e Grandes Dias: Os Rituais na Construção da Família Contemporânea. As suas principais áreas de interesse, investigação e publicação são a família e vida pessoal; tempo social e idades da vida; e, mais recentemente, as questões da ritualização, consumo, memória e imaginário, aplicadas às representações, discursos e práticas n(d)a família contemporânea.