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©Associação Portuguesa de Sociologia – Lisboa, 2012
Associação Portuguesa de Sociologia
PAP0629 - Conflitos ambientais, redes de resistência e a perspectiva do lugar na mobilização dos moradores do bairro Camargos/Brasil.
As contradições que entrelaçam o paradigma do desenvolvimento sustentável e a emergência de conflitos ambientais devem ser pensadas através da crítica à perspectiva que considera a priori a existência do meio ambiente como uma realidade objetiva ao mesmo tempo em que universal. Nesse sentido, ao largo do debate globalcêntrico (ESCOBAR, 2005) a respeito das causas da alarmada crise ambiental ou ecológica, sujeitos e grupos sociais se organizam em busca da legitimidade e do reconhecimento de suas visões a respeito do espaço vivido (LEFEBVRE, 1999), resistindo frente a processos cada vez mais intensificados pela apropriação capitalista do espaço.
No Brasil, tem-se verificado como os conflitos ambientais evidenciam assimetrias nas relações de poder do campo ambiental (BOURDIEU, 2007; CARNEIRO, 2005) que se expressam muitas das vezes de forma objetiva em instâncias decisórias, como nos conselhos gestores do meio ambiente. Contudo, considerando a perspectiva crítica que pressupõe o ambiente como uma construção simbólica e material (ACSELRAD, 2004a; ZHOURI et al. 2005), o caráter conflitivo dessas situações atravessa questões que remetem a uma reflexão analítica pautada na centralidade das construções sociais do ambiente a partir dos pontos de vista do lugar (ESCOBAR, 2005; ZHOURI & OLIVEIRA, 2010).
A partir da análise da configuração de um conflito ambiental envolvendo moradores do bairro Camargos - localizado na cidade de Belo Horizonte/Brasil - e uma empresa de incineração de resíduos, o presente artigo discute como a perspectiva progressista do lugar (MASSEY, 2000) permeia significações e práticas sociais a respeito do ambiente e suas formas de expressão enquanto mobilização política em torno de sua defesa.
Com efeito, a organização do movimento do bairro Camargos remete às interpretações sobre os movimentos sociais na atualidade, que têm no conceito de rede sua chave analítica (SCHERER-WARREN, 2003; ESCOBAR, 2003). No entanto, a própria formação sociohistórica do bairro traz à luz aspectos identitários e políticos intrínsecos às relações sociais estabelecidas no e com o lugar, que se configuram de fundo como uma luta por reconhecimento de uma autonomia frente à heteronomia dos atores dominantes em fazer valer sua visão sobre o espaço concreto.
- VASCONCELOS, Max

Max Vasconcelos
Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais. Atua desde 2008 como pesquisador do GESTA - Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais da UFMG no âmbito das pesquisas Mapa dos Conflitos Ambientais do Estado de Minas Gerais e A Política dos Biocombustíveis e os Conflitos Ambientais. Tem experiência na área de Sociologia, atuando principalmente nos seguintes temas: conflitos ambientais; meio ambiente; justiça ambiental; desenvolvimento.
PAP0859 - Inundações e ação social em Campos dos Goytacazes (Rio de Janeiro, Brasil)
O presente artigo aborda pesquisas realizadas
no Brasil no campo da sociologia dos desastres,
buscando esclarecimentos conceituais e
metodológicos relevantes à interpretação da
dimensão sócio-política do acontecimento das
inundações periódicas na região Norte do estado
do Rio de Janeiro, com destaque para o
município de Campos dos Goytacazes. Entre os
meses de novembro e dezembro de 2008, Campos
recebeu um grande volume de chuvas que
desencadeou intensas inundações, como a que
atingiu o bairro de Ururaí, localizado às
margens do rio de mesmo nome, que atravessa
parte deste município. Neste período, mais de
setecentas pessoas foram alojadas em abrigos
improvisados nas escolas do bairro, mas logo
tiveram de ser transferidas para outras escolas
do centro da cidade – interrompendo-se assim o
calendário escolar –, em função de uma nova
elevação do nível das águas. Segundo a Defesa
Civil cerca de 8 mil pessoas foram “atingidas
pela chuva” nas áreas mais críticas do evento
neste município (2.450 desabrigados e 5.500
desalojados), e em todo o estado do Rio de
Janeiro contabilizou-se mais de 394 mil pessoas
afetadas pelas inundações. Concordando com
Mattedi & Butzke (2001), partimos da
compreensão do desastre como um fenômeno
social, buscando interpretar o acontecimento da
inundação através de uma abordagem integrada a)
da construção das condições sociais prévias ao
desastre e b) da dinâmica de enfrentamento,
durante e após o evento. Diferentemente das
situações de desterritorialização a partir de
eventos de desastres, apontadas em Valencio e
outros (2009) – quando a prática institucional
da Defesa Civil aliada ao discurso técnico dos
mapeamentos de áreas de risco promove o
deslocamento involuntário dos moradores –,
chamou-nos à atenção o fato do governo
municipal de Campos intensificar os trabalhos
para a consolidação da urbanização do bairro de
Ururaí em 2011, nesta chamada área de risco.
Este fato pareceu-nos indicar, por um lado, um
esforço de fortalecimento de alianças políticas
locais por parte do governo municipal – como
também sugerem alguns depoimentos de moradores
locais; e por outro lado, provoca-nos a
construir uma compreensão mais aprofundada
sobre a percepção, enraizamento e ação dos
próprios moradores do bairro, que lutam por
permanecer na área. Buscamos assim debater
algumas possibilidades de interpretação desta
dinâmica social associada às inundações
periódicas neste bairro, de modo a trazer novos
elementos que colaborem para uma reflexão
crítica das políticas públicas de enfrentamento
das inundações no município e região.
- MALAGODI, Marco Antonio Sampaio
- SIQUEIRA, Antenora Maria da Mata