PAP0462 - Famílias reconstruídas - A figura da madrasta: dos contos infantis às representações das crianças
Segundo as estatísticas do INE os casamentos de homens divorciados e viúvos ascendia em 2009 aos 18,8%, número que tem vindo a aumentar exponencialmente desde o início do século. As famílias têm assumido novas formas nas sociedades actuais, sendo o foco de interesse nesta comunicação as famílias reconstituídas, também designadas como recompostas ou reconstruídas.
As crianças são um dos actores envolvidos, e por vezes, mais confundidos, nesta reconstrução que não é imediata, mas que se caracteriza por um processo adaptativo, contínuo, por vezes bastante prolongado e nem sempre de fácil aceitação por implicar simultaneamente perdas, ganhos e novas vivências. Enquanto sujeitos activos da sua vida, e das vidas dos que as rodeiam, as crianças olham o mundo e interpretam-no com uma perspectiva própria, enriquecida de sentido e que até há pouco tempo não era considerada válida ou sequer existente. Baseados neste olhar infantil, com maturidade suficiente para explicar e compreender o seu mundo, analisamos a figura da madrasta, isto é, quais as representações das crianças sobre esta “mãe de substituição” que tantas vezes povoa o imaginário dos contos de fadas que nos habituámos a ouvir desde pequenos.
Os contos infantis analisados, como “A Branca de Neve”, “A Cinderela”, entre outros, mostram-nos a negra imagem da madrasta, tão consentânea com expressões idiomáticas da língua portuguesa que se foram enraizando no nosso quotidiano: “Vida madrasta”, significando que a vida foi realmente dura ou recheada de tribulações. Mas afinal, será que é assim que as crianças vêm a figura da madrasta?
Os discursos escritos de dezanove alunos do 3º ano do 1º ciclo do ensino básico trazem-nos uma perspectiva desmistificada do que é ser madrasta no século XXI. Nesta amostra incluem-se 13 crianças em famílias nucleares, 5 em famílias monoparentais maternas e uma numa família adoptiva.
Da análise de conteúdo das composições escritas encontramos três categorias principais: a madrasta boa, avaliada desta forma por todas as raparigas, sete, e cinco rapazes; a madrasta má, referida maioritariamente por rapazes; e a madrasta enquanto figura materna aceite pelas crianças mas numa posição inferior à da mãe.
Licenciada em Ciência Política (ISCSP – UTL), mestre em Desenvolvimento, Diversidade Locais e Desafios Mundiais – Análise e Gestão (ISCTE – IUL) e pós-graduada em Proteção de Crianças em perigo e intervenção local (ISCSP – UTL). Atualmente é doutoranda de Sociologia no ISCTE-IUL e bolseira de doutoramento da FCT no CIES-IUL. Tem como principais interesses de investigação a sociologia da infância, crianças e jovens em risco, sociologia da família, ONGs, desenvolvimento social e humano, pobreza e exclusão social.