PAP0230 - Os projetos individuais de gestão do corpo da mulher-mãe: o self enquanto construção social
Nesta apresentação, baseada na dissertação de Mestrado “As Narrativas do Corpo na Voz da Mulher-Mãe”, analisam-se os projetos individuais de gestão do corpo da mulher-mãe de acordo com o respetivo espaço social, realçando-se as inter-relações entre o corpo vivido e sentido e o corpo real. Pretende-se analisar a imagem corporal da mulher-mãe, numa linha sociológica, procurando em simultâneo, conjugar diferentes perspetivas científicas que engrossam o tema e o tornam num objeto de estudo que deve ser abordado enquanto um elemento dinâmico, mutável e inserido no contexto da sociedade moderna.
Procurando as abordagens mais centradas na capacidade do indivíduo de decidir para além das estruturas sociais, remete-se a atenção para como as sociedades contemporâneas têm tornado o corpo como uma preocupação óbvia, de como o indivíduo gere as impressões de si próprio. Esta ideia tornou-se evidente nas sociedades contemporâneas, tal é a centralidade do nosso corpo na definição de quem somos. Investigadores pós-modernistas defendem que o consumo de determinados produtos (cirurgias plásticas, lipoaspirações, cosméticos, dietas, fitness, etc.), ou a mercantilização do corpo, tornou-se central na forma como as pessoas se definem nas sociedades reflexivas, desde que os bens de consumo se tornaram o centro dos significados culturais, os quais vieram substituir outras formas de formação da identidade, nomeadamente aquelas relacionadas com a religião e produção.
Nas sociedades reflexivas o indivíduo está embutido no pressuposto de que se pode alcançar a autorrealização ao longo do espaço de autoexpressão e crescimento pessoal. Os indivíduos têm projetos de construção da sua própria identidade com o objetivo de alcançar a realização pessoal. Um dos projetos em que os indivíduos são encorajados a fazer investimentos significativos é o corpo, surgindo este como parte integrante de um projeto de construção do próprio self.
A investigação empírica teve como objetivo captar os discursos sobre a evolução do corpo na mulher-mãe, procurando deste modo, analisar as narrativas construídas na primeira pessoa sobre um tema que lhes é muito próximo. Revelou-se, através de uma metodologia qualitativa, com a realização de entrevistas semidiretivas a um grupo restrito, de que forma as mulheres-mães apresentam os seus discursos, identificando-se os processos de identidade social. Concluiu-se que existe uma transversalidade nas diferentes perspetivas sobre o corpo da mulher-mãe, e que o self enquanto construção individual engloba tanto a dimensão física/material como a dimensão mais subjetiva, aquela que é vivida e sentida.
Sandra Sofia Moreira de Sousa, bolseira de investigação no Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, licenciada em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho (1998) e mestre em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (2010), tem como interesses de investigação a área da ciência e tecnologia, nomeadamente a vertente da reprodução medicamente assistida.