PAP1402 - Caminhar e pedalar na cidade automobilizada : Análise das representações sociais vigentes
A reflexão em torno da mobilidade quotidiana
em espaço urbano remete-nos para as questões
associadas aos significados que lhe estão
inerentes. As práticas de mobilidade são muito
mais que práticas de deslocação física de um
ponto para outro, são práticas significativas,
uma vez que sendo a mobilidade uma prática
social, está relacionada com as normas
culturais e regras vigentes numa determinada
sociedade.
Cresswell (2006) defende as práticas de
mobilidade são ideológicas, sendo que a
mobilidade está associada a diversas
conotações que têm mudado ao longo do tempo e
que divergem de sociedade para sociedade. O
conceito de mobilidade é o equivalente
dinâmico do lugar transportando em si
significados, poder e compreensões
conflituais. O discurso em torno da mobilidade
integra diversos conceitos contraditórios,
encerrando em si múltiplos significados. Este,
tal como outros, é um conceito que não é
neutro.
Para Cresswell a “mobilidade é um emaranhado
de movimento físico, de significado e de
prática” (2009:25), sendo que cada um destes
elementos que se encontram ligados entre si
integra em si relações de poder.
Compreender os processos complexos de
mobilidade passa necessariamente pela análise
das representações sociais subjacentes aos
diversos sistemas de mobilidade (Cresswell
2006; 2009), uma vez que a escolha de
determinado meio de deslocação está em grande
parte associado ao modo como os actores
sociais apreendem a realidade social e
desenvolvem representações sociais acerca da
mesma.
A observação da imprensa escrita constitui uma
forma importante de recolha de dados sobre a
opinião pública, permitindo-nos, através da
sua análise, compreender as representações e
os significados relativos a um determinado
objecto cultural em circulação numa sociedade.
Em Portugal apenas 15% dos indivíduos se
desloca a pé e 1% de bicicleta contra 56% que
se deslocam diariamente de carro e 25% de
transportes públicos, segundo dados do
Eurobarómetro de 2007.
Com base no observatório de imprensa efectuado
no âmbito da dissertação para doutoramento em
curso para o qual recolhi notícias de três
jornais: Diário de Notícias, Jornal de
Notícias e Público relativas a duas formas
específicas de deslocação - a pedonal e a
velocipédica - pretendo analisar os
significados vigentes acerca das mesmas, tendo
em atenção que são dois modos de deslocação em
concorrência com o automóvel – a forma
dominante de deslocação numa sociedade como a
nossa – altamente “automobilizada”.