PAP0665 - ''Covilhã e cidades alpinas: o contributo da paisagem para a sustentabilidade urbana
A qualificação dos ambientes urbanos e a conservação do carácter tradicional dos núcleos antigos resulta da compreensão da importância destes aspectos para a sustentabilidade das cidades. Esta é uma realidade que tende a evidenciar-se no actual contexto de competitividade que leva as cidades a desenvolver estratégias de promoção de imagens de marca que se considera caracterizarem as localidades.
Neste contexto, a cidade da Covilhã destaca-se como caso de estudo de particular interesse. No quadro das cidades portuguesas intermédias, detém um perfil singular de cidade de montanha com expressão de uma significativa tradição industrial. Os efeitos da industrialização na paisagem e na evolução urbana estão associados a consequências urbanísticas muito significativas e a fortes marcas identitárias até aos anos oitenta do século XX.
Na época contemporânea a função universitária será instituída e torna-se o principal activo moldando um perfil urbano tendencialmente mais cosmopolita. Dos pontos de vista urbanístico, arquitectónico e paisagístico, muitas das transformações associadas à Universidade foram significativas e caracterizam-se por linhas gerais de orientação de valorização das pré-existências (associadas à indústria) e da paisagem urbana, ligando a cidade à envolvente natural. A implementação do programa Polis veio reforçar esta tendência, centrando-se na reconversão das áreas das ribeiras e promovendo as acessibilidades pedonais.
Em termos prospectivos, a reaproximação da cidade relativamente ao espaço natural como elemento simbólico e identitário tem potencial para singularizar a cidade. Poderia ser acolhida por uma cultura de planeamento que recuperasse o carácter singular da cidade em simbiose com a montanha, e bem assim, a noção cultural e simbólica do valor da paisagem, gerando uma nova ideia de cidade, interessante para o planeamento e a reabilitação espacial e social. Seguiria a linha das transformações operadas pela UBI (tanto ao nível espacial como social e cultural), por algumas das intervenções do programa Polis (obras de valor desigual mas que, no conjunto, ensaiam uma nova visão reestruturante para a cidade pós-industrial) e pelo Plano de Pormenor da Zona Intra-Muralhas do Centro Histórico da Covilhã (que iniciou a reconversão de uma zona da cidade caracterizada pelo abandono). O desenvolvimento desta reconversão urbanística adoptaria uma identificação com a montanha, assumindo diferentes frentes (simbólicas, ambientais, paisagísticas e económicas), em analogia com a lógica já adoptada por outras cidades de montanha europeias, com a participação cívica e a colaboração em rede entre instituições.
Com base nestas premissas, poderia então elaborar-se um projecto de cidade assente na tolerância e na participação, enquadrado pelos valores da sustentabilidade e da qualidade de vida.
Maria João Matos. Doutorada em Arquitectura e Paisagem pela Universidade da Beira Interior e pela Université Paris 8. Docente e investigadora no Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Investigadora do permanente do CIAUD, Faculdade de Arquitectura, Universidade Técnica de Lisboa.
Interesses de investigação: Paisagem, Desenho urbano, Relação arquitectura-paisagem.
Domingos Martins Vaz, professor no Departamento de Sociologia da Universidade da Beira Interior e investigador do CesNova (Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa). A sua principal área de estudo é a sociologia urbana e do território, sendo autor do livro Cidades Médias e Desenvolvimento: o caso da cidade da Covilhã [UBI, Covilhã, 2004], organizador do livro Cidade e Território: Identidades, Urbanismos e Dinâmicas Transfronteiriças [Celta, Lisboa, 2008] e autor de diversos textos nos domínios das cidades, do ordenamento do território e do desenvolvimento regional.