PAP0995 - Assimetrias de género no poder político local
A questão das desigualdades de género no mercado de trabalho tem sido sobejamente estudada o que não lhe retira, contudo, centralidade nas análises sobre as desigualdades nas sociedades actuais. E quando se fala sobre a escassa representação de mulheres em cargos de liderança política também está também a falar-se de um problema da limitação dos direitos de participação política, que, por sua vez, é um reflexo da qualidade da democracia.
Embora muito tenha sido feito em Portugal nas últimas três décadas e meia, ainda há um longo caminho a percorrer em direcção a uma verdadeira igualdade de oportunidades no que respeita ao acesso ao mercado de trabalho, incluindo as posições de topo das hierarquias.
A arena política, por ser um círculo altamente masculinizadas e com uma exposição pública potencialmente elevada, representa um observatório particularmente interessante para o estudo de assimetrias de género. A juntar-se às dificuldades de acesso inerentes a este campo específico, há que acrescentar os factores de discriminação que são comuns à maioria das áreas do mercado de trabalho, e que dizem respeito à disparidade salarial e problemas com a conciliação da vida profissional, privada e familiar, entre outros.
O objectivo deste trabalho é analisar os dados das eleições locais, correspondendo a parte de uma investigação com um âmbito um pouco mais alargado que está em curso. Nesta análise pretende-se observar a tendência da participação das mulheres neste campo particular da vida política, entre 1976 e 2009. Mais, a avaliação de tais tendências será particularmente útil na tentativa de compreender o impacto da aplicação da lei da paridade, aprovada em Portugal em 2006.
Ana LúciaTeixeiraDias
Doutorandaem Sociologia e Mestre emProspecção e Análise de Dados;Investigadora do ObservatórioNacional de Violência e Género e do CESNOVA (FCSH-UNL), onde temdesenvolvidoprojectos de investigaçãonasáreasdosestudos de género.
PAP1490 - Poderes e padrões culturais numa aldeia minhota: continuidade e mudança (1970-2004)
Esta comunicação faz parte de um estudo mais
abrangente, a dois níveis (municipal e
aldeão), o qual consistiu saber em que medida
as organizações, associações e entidades
locais, ao potenciarem os recursos endógenos
e, eventualmente, ao captarem recursos
exógenos, representam formas de
desenvolvimento das comunidades em contexto
local, designadamente rural.
A partir da referida questão foi seleccionado
como estudo de caso o concelho de Barcelos e,
dentro deste, a aldeia de Durrães. Recorreu-se
ao inquérito, entrevista aprofundada e
observação participante.
As mudanças na estrutura económica e
profissional e respectiva organização aldeã
não poderiam deixar de ter suas repercussões
na vida local, nas práticas e interacções, nos
padrões culturais e nas atitudes dos
residentes. Verificam-se diferenças em algumas
das práticas, estratégias e padrões de
comportamento, principalmente as relações de
vizinhança e ajuda mútua e solidariedade entre
os dois tempos: os actuais e os dos anos
sessenta.
Nos anos sessenta a população vivenciava
fortemente os acontecimentos religiosos
(festas principais e outras celebrações). O
poder eclesiástico local representado no
pároco, bem vigilante sobre os seus
paroquianos, estava em relativa sintonia e
correspondência com a Junta de freguesia.
Decorridos mais de trinta anos, podemos dizer
que há uma menor frequência no cumprimento de
certas obrigações. O significado dos rituais
(baptismo, primeira comunhão e casamento) tem
hoje mais um sentido de encontro, afirmação
familiar e, por vezes, de exibição social.
Quanto às actividades culturais ocorrem ainda
sob a luta de poderes no seio da freguesia
entre dois grupos. Fora desta competição não
se verifica uma estratégia global de interesse
e mobilização de toda a comunidade.
No plano social e político, a alteração dos
processos produtivos e ocupações profissionais
também representou uma forte diminuição das
relações da autoridade tradicional.
Em termos de vivências e representações socio-
culturais que dão força e renovam as velhas
identidades, há moradores que procuram
destacar e dar novo impulso a elementos
identitários: vestígios arqueológicos, a
igreja e outros monumentos, manifestações
culturais e religiosas. Confirmando conclusões
doutros estudos, os habitantes de Durrães têm
um forte apego e identificação cultural e
religiosa com a sua terra, mas hoje de maneira
diferente da do passado.
Com o 25 de Abril e sobretudo nas duas últimas
décadas mudou algo na relação de forças quanto
a poderes e padrões culturais. Persistem
certamente as relações clientelares na aldeia
mas a política local ocorre pela intermediação
dos alinhamentos partidários e a propósito dos
mais variados assuntos. Por outro lado, o
quadro relacional entre os moradores mudou
consideravelmente: maior afrouxamento dos
vínculos comunitários e aumento da relativa
autonomia familiar e individual