PAP1271 - Formação Policial e Segurança Pública no Ceará: a experiência do Programa Ronda do Quarteirão
A partir do ano de 2000, com a criação do Plano
Nacional de Segurança Pública (PNSP), o Governo
Federal Brasileiro iniciou sua preocupação
quanto à formação, qualificação e valorização
profissional dos agentes de segurança pública,
propondo ações que pudessem garantir uma
reforma substancial nas polícias estaduais.
Aliado a isto, passou-se a estimular, nos
Estados brasileiros, o desenvolvimento de
experiências de policiamento comunitário, com o
objetivo primordial de superação do modelo
tradicional de se fazer policiamento implantado
no País desde suas origens, mais identificado
com ações reativas e repressivas do que com
ações proativas e preventivas. Não contrariando
este contexto regional, o governador do Ceará,
Cid Gomes, durante seu primeiro mandato (2007-
2010), trilhou sua campanha eleitoral,
focalizando-a em uma nova proposta de
policiamento com feições comunitárias,
denominado Programa “Ronda do Quarteirão”.
Também conhecido como “a polícia da boa
vizinha”, o programa se propôs a desenvolver
uma modalidade de policiamento por meio de
ações ostensivas e preventivas, tendo como
diferencial sua proposta de proximidade com a
população e a contribuição desta na prevenção
da criminalidade. Com o passar do tempo, as
abordagens do novo policiamento, antes
respeitosas e cordiais, começaram a assemelhar-
se ao policiamento tradicional. Velhos
problemas ressurgiram, dentre eles, o de
“abordagens policiais desastrosas”, associadas
à formação policial deficitária, resistências,
sabotagens e dificuldades que fizeram com que o
Programa perdesse sua credibilidade junto à
população. O presente trabalho tem como
objetivo compreender o processo de qualificação
desses policiais e se esta qualificação está em
acordo com os mecanismos legais e as políticas
públicas que subsidiam a formação dos
operadores de segurança pública no Brasil. O
estudo revela que formalmente houve uma
preocupação em unir o ensino das técnicas e
culturas militares a fundamentos teóricos mais
humanísticos, que permitissem uma atuação
policial de proximidade com a comunidade.
Entretanto, percebe-se um ensino fragmentado,
sem interdisciplinaridade e em desacordo com os
mecanismos legais pertinentes. Assim, as
deficiências da formação podem ter contribuído
para a reprodução de práticas abusivas e de
desrespeito aos direitos humanos não
capacitando os recém-formados para não
reproduzir as práticas de uma polícia
tradicional, conservadora e pouco contribuindo
para a modificação da mesma.
Lara Abreu Cruz
Possui graduação em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e é aluna do Mestrado em Políticas Públicas e Sociedade (MAPPS/UECE). Participa do Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética (Labvida/UECE) e do grupo de pesquisa Direitos Humanos e Políticas de Segurança Pública do CNPq. Tem experiência na área da Sociologia da Polícia, atuando especialmente nos seguintes temas: formação policial, policiamento comunitário e políticas públicas de segurança.
Emanuel Bruno Lopes de Sousa
Possui graduação em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), Mestrado em Políticas Públicas e Sociedade pela UECE e aluno do Curso de Doutorado em Política Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF-Niterói/RJ). Pesquisador do Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética (Labvida/UECE). Tem atuado nas seguintes áreas: políticas de segurança pública, práticas policiais, policiamento comunitário,
Maria Glaucíria Mota Brasil
Possui graduação em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), Mestrado em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e Doutorado em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É professora efetiva da Universidade Estadual do Ceará, onde coordena o Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade (MAPPS) e o Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética (Labvida). É líder do grupo de pesquisa Direitos Humanos e Políticas de Segurança Pública e pesquisadora de produtividade do CNPq. Tem