PAP0572 - “Façam o Milagre!”. Poluição, media e protesto ambiental na bacia do Lis
No final da década de 80 a suinicultura portuguesa transformou-se para dar resposta à crescente procura de carne de porco. Seguindo uma tendência internacional, reforçou a especialização e concentração regional da produção e diminuiu de forma acentuada o número de explorações, o que significou o aumento do número de efectivos produzidos por unidade. Se, por um lado, o sector conquistou um papel de relevo no aumento do rendimento económico e na criação de emprego, por outro lado, a concentração de suiniculturas com elevado número de efectivos reflectiu-se na degradação dos recursos hídricos e na perda de qualidade de vida e bem-estar das populações. A esta tendência juntou-se o adiar de soluções quanto ao tratamento de esgotos domésticos, industriais e suinícolas, apesar do elevado investimento público realizado a partir de 1986 com financiamento de Fundos Comunitários. Como resultado, temos assistido ao agravamento da qualidade da água dos principais rios nacionais e ao eclodir de importantes conflitos ambientais. Pela sua amplitude e maior visibilidade, a poluição da bacia hidrográfica do rio Lis é elucidativa quanto à situação do país. Em poucos anos, a produção de suínos transformou-se numa das principais actividades económicas da região, ao concentrar cerca de 1/5 da produção nacional, por sua vez maioritariamente praticada no troço a montante de um dos seus principais afluentes – a Ribeira dos Milagres. A poluição hídrica daí resultante tem gerado enorme controvérsia pública entre movimentos de defesa do ambiente de base local e os suinicultores, razão para a persistência do tema nos meios de comunicação nacional e regional. A alimentar a controvérsia acrescem dificuldades sucessivas na implementação de infra-estruturas de despoluição e a inconsequência das acções de fiscalização. O nosso objectivo passa por apresentar, a partir dos registos noticiosos de dois jornais regionais – Região de Leiria e Jornal de Leira – os principais momentos do conflito ambiental, os seus protagonistas, os cursos de água mais mediatizados, os avanços e recuos do processo, assim como as diferenças e semelhanças relativamente à mediatização feito pela imprensa de base nacional a partir das notícias publicadas pelo jornal Público.
José Gomes Ferreira, licenciado em Sociologia pelo ISCTE-IUL e mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação pelo mesmo Instituto. Encontra-se actualmente a terminar o seu projecto de doutoramento em Ciências Sociais, especialidade de Sociologia, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, com o título “Saneamento básico: factores sociais no insucesso de uma política adiada. O caso do Lis”, orientado pela Prof. Doutora Luísa Schmidt. Integra desde 1998 a equipa do Programa Observa – Observatório de Ambiente e Sociedade, onde tem colaborado em diversos projectos.