PAP0675 - Diversidade cultural nas escolas: uma ponte para novos (des)encontros?
Sendo a igualdade de oportunidades um ideal em permanente (des)construção, e a massificação do ensino persistentemente associada a baixos níveis de qualidade, o direito à diferença tem vindo a ganhar protagonismo nas escolas públicas, em diferentes espaços de afirmação institucional, familiar e individual. As diferenças de mérito são fixadas através de rituais renovados – os prémios escolares – que permitem seleccionar e distinguir os alunos com as melhores performances escolares; embora sem consenso generalizado, as crianças com necessidades educativas especiais são introduzidas num sistema que procura para estas um encaixe, simultaneamente, especial e inclusivo.
Mas o que acontece quando alunos afrodescendentes assumem o uso do crioulo, ou quando famílias de etnia cigana hesitam no valor a atribuir à escola? Diferentes experiências etnográficas revelam o potencial de dissociação e confronto que estas interações encerram, permitindo problematizar o papel da escola enquanto instância de aculturação.
Mas o que pode acontecer quando, em contexto de formação contínua, desafiamos um grupo de professores-formandos a pensar nas regras escolares como opções culturais, associadas a significados historicamente produzidos com base em relações de poder? Poderá a noção de mediação funcionar como um instrumento útil numa aproximação ao outro enquanto produtor de significados? Como fazer esta viagem sem cair num vazio comprometedor ou numa incerteza paralisante? Este parece ser um terreno que exige uma continuada reflexão sobre os diferentes referenciais em jogo e sobre as modalidades de partilha, debate e recriação experimentados.
- LEANDRO, Alexandra

Alexandra Leandro, doutoranda do Departamento de Antropologia do ISCTE, em fase de conslusão da tese de doutoramento, as áreas de interesse são - educação, escolas e segurança e formação de professores.
PAP0711 - Fragmentos de vidas profissionais de professores: vivências e reacções às recentes reformas educativas
Enquanto medidas profissionais e gestionárias definidas “de fora para dentro”, a implementação da revisão do Estatuto da Carreira Docente (2007) e da Gestão e Direcção Escolar (2008) tiveram implicações na autonomia e autoridade dos professores, desafiando e reenquadrando as suas identidades profissionais. Apresentamos nesta comunicação resultados parciais obtidos numa investigação qualitativa que, procurando um aprofundamento das trajectórias profissionais dos professores para desvendar as suas identidades profissionais, permitiu entender a relação entre perfis de identidade e respostas às reformas educativas. Interessou-nos, fundamentalmente, analisar as reacções em função de variáveis que têm sido consideradas relevantes - anos de serviço, género, área disciplinar, experiência profissional -, mas também o nível de envolvimento dos professores em associações e sindicatos de professores. Esta abordagem implica, por um lado, uma análise dos processos institucionais tendo em consideração os processos individuais e, por outro, o entendimento da identidade profissional como processo dinâmico, construído e reconstruído em determinadas épocas histórias e contextos sociais, através de dinâmicas de conflito e negociação. A partir de uma discussão articulada entre a Sociologia da Educação, a Sociologia das Profissões e a utilização da metodologia de Histórias de Vida, analisamos fragmentos de biografias e discursos de um conjunto de professores do ensino secundário que ilustram características-chave das formas de posicionamento e apropriação simbólica das reformas: aceitação, conformidade, afastamento, resistência, transformação. Os resultados obtidos permitem constatar que os professores se posicionam baseando-se em esquemas de pensamento e acção reflexivos, na mobilização de valores e poderes e na expressão de emoções. Trazemos para a discussão algumas questões pertinentes e actuais: poder-se-á falar de um posicionamento generalizado dos professores face às reformas? Existirão diferenças consoante grupos específicos? São essas reacções estratégias de preservar poderes profissionais, uma identidade profissional reivindicada?
- STOLEROFF, Alan
- SANTOS, Patrícia
PAP1565 - O uso do conhecimento profissional dos professores em contexto profissional: da “partilha” ao “share”
Na sociologia das profissões o conhecimento profissional tem sido entendido como um dos principais elementos distintivos dos grupos profissionais, e como recurso de poder e afirmação profissional. A pesquisa a partir da qual se propõe a presente comunicação, debruça-se sobre os processos de uso do conhecimento profissional e a representação que os profissionais – os professores - têm acerca do mesmo. A presente discussão enquadra-se na problemática do conhecimento profissional dos professores, em particular, numa das mais significativas dicotomias identificadas, a relação entre a teoria e prática profissionais (Tardif, Lessard e Lahaye, 1991; Sá-Chaves, 1994; Alarcão, 1996; Connelly e Claudinin, 1994; Fenstermacher, 1994; Losego, 1999; Perrenoud, 2001; Tardiff, 2004; Montero, 2005; Roldão, 2007; Lanthaume, 2006; Kelly, Luke e Green, 2008; Ulvik e Smith, 2011). Este debate embora não seja novo mantém-se actual (Nóvoa, 1995; Barbier, 1996; Chartier, 1998; Tardiff, 2004; Montero, 2005; Caria, 2009; Loureiro, 2010; Roldão, 2007; Ulvik e Smith, 2011). Este debate embora não seja novo mantém-se actual (Nóvoa, 1995; Barbier, 1996; Chartier, 1998; Tardiff, 2004; Montero, 2005; Caria, 2009; Loureiro, 2010; Roldão, 2007; Ulvik e Smith, 2011). Este debate embora não seja novo mantém-se actual (Nóvoa, 1995; Barbier, 1996; Chartier, 1998; Tardiff, 2004; Montero, 2005; Caria, 2009; Loureiro, 2010; Roldão, 2007; Ulvik e Smith, 2011). Metodologicamente os resultados trazidos para a discussão provêm de uma investigação desenvolvida em torno da prática profissional dos professores em contexto. Tecnicamente parte-se da análise das entrevistas sobre as situações observadas em contexto profissional, realizadas a 12 professoras do ensino básico de dois agrupamentos. A ideia de “partilha” revelou-se a mais central e transversal nos discursos, embora se referencie a situações e dinâmicas muito distintas, variando entre situações formais e informais, em presença ou à distância. Concluiu-se assim que para estas professoras constitui-se como elemento central da construção, mobilização e uso do seu conhecimento profissional as situações de trabalho conjunto, assim como a consulta a fontes muito diversificadas, sobretudo as disponíveis na web. O plano presencial, na escola, e o tecnológico, na Web, são referenciados como os “dois palcos” em que se joga essa “partilha”. Evidencia-se assim a importância que a prática profissional em equipa assume para estes profissionais (Sá-Chaves, 1994; Alarcão, 1996; Caria, 2003; Loureiro, 2010). Retoma-se a ideia que o conhecimento em si não é suficiente para se constituir como recurso, como refere Rodrigues (1997); é fundamental reconhecer e compreender os processos de construção e de apropriação do mesmo. Reforça-se a importância da reflexão sobre a produção e mobilização de conhecimento profissional para o reforço da profissionalização deste grupo (Caria, 2005; Roldão, 2007); sobretudo numa actualidade marcada por uma relativa incerteza seja pela (re)definição curricular, seja pelas alterações no acesso e progressão nas carreiras e avaliação de desempenho dos professores, seja ainda, pela pressão nacional e internacional para a melhoria dos resultados escolares (Lanthaume, 2006; Roldão, 2007, Timperley e Alton-Lee, 2008).
- CAMPOS, Joana

Joana Campos
Docente na Escola Superior de Educação de Lisboa e investigadora do CIES-ISCTE-IUL. Licenciada em Sociologia e Mestre em Educação, actualmente a frequentar o programa de Doutoramento em Sociologia do ISCTE. As principais áreas de investigação desenvolvidas inscrevem-se na Sociologia da Educação; anteriormente em torno das problemáticas da diversidade cultural e desigualdades sociais na escola. Actualmente a investigação desenvolvida orienta-se sobretudo para os processos de formação e profissionalização dos professores e de outros profissionais da educação, como os animadores socioculturais. Outra linha de pesquisa ocupa-se essencialmente das problemáticas associadas à violência na escola, tendo contribuído para o seu desenvolvimento a integração na equipa do Observatório da Segurança Escolar.
PAP1307 - Porque se mobilizam os professores? Juízos plurais sobre o que é “um bom profissional de ensino”. Análises exploratórias
A comunicação visa empreender, no quadro da
Sociologia Pragmática de Thévenot e Boltanski,
uma primeira abordagem ao movimento de
contestação dos professores ao Estatuto da
Carreira Docente (ECD) aprovado em 2007
enquanto questão intimamente ligada à
problemática de juízos morais e políticos
plurais sobre “o que é ser professor num
contexto de incerteza” nas escolas como arenas
públicas.
Tendo como pano de fundo a contestação às
sucessivas reformas na educação implementadas
desde os anos 80, procurar-se-á, à luz do
trabalho teórico desenvolvido pelos autores em
“De la Justification” e “L’action au pluriel”,
apresentar os resultados das primeiras análises
de dados empíricos recolhidos (através de
fontes documentais e entrevistas realizadas
junto de porta-vozes e representantes sindicais
dos professores) de forma a compreender que
“regimes de justificação” foram mobilizados
para justificar as críticas aos princípios de
justiça que presidiram à reforma do ECD e para
a receptibilidade pública da denúncia como
“injustiça” através da referência a “ordens de
grandeza de carácter moral e político”.
Mediante fontes consultadas, identificaram-se
como principais focos de conflito a
estruturação vertical da carreira docente, com
a criação de duas categorias (“Professor” e
“Professor titular”) e a correspondente
diferenciação funcional, aliada a uma avaliação
de desempenho dos professores com efeitos na
progressão na carreira (e limitada por quotas
no acesso aos escalões cimeiros).
Com esta reforma, os seus responsáveis visavam
a instauração de um sistema de avaliação e
progressão mais responsabilizador dos
professores pelos resultados escolares dos seus
alunos (e distinção dos “melhores
profissionais”) e uma hierarquização que
estimulasse uma maior exigência nas práticas
pedagógicas.
No entender dos professores, o novo ECD
acarreta a introdução de mecanismos de
“controlo” que corroem a autonomia e
reflexividade que devem pautar a actividade
docente e coloca em causa o papel integrador
das escolas que só pode ser cumprido por uma
concepção do trabalho pedagógico como um
esforço colectivo dos docentes de cada
estabelecimento de ensino – posto em causa por
uma avaliação limitadora da progressão na
carreira.
À luz do corpo teórico mobilizado, a primeira
hipótese a explorar é a de que o novo estatuto
assenta numa representação do professor
orientada pela lógica da “cité industrial” –
concepção da “eficácia” e “direcção” aplicada à
acção docente – e pela lógica da “cité
mercantil” – a “concorrência” e “competição”
mediante um sistema de desempenho limitador da
progressão. Em segundo, procura-se demonstrar
que as críticas dos professores ao ECD são
orientadas pela lógica da “cité inspirada” – a
autonomia e inovação na acção pedagógica – e a
lógica da “cité cívica” – a solidariedade
cívica entre os professores em prol da
igualdade de oportunidade entre os alunos e o
combate à exclusão escolar.
- RESENDE, José Manuel
- GOUVEIA, Luís

Licenciado em Sociologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Doutorando na mesma instituição desde 2011. Bolseiro de Investigação da Fundação para a Ciência e Tecnologia com o projecto intitulado "Porque se mobilizam os professores? Representações colectivas e coordenações de acções públicas dos professores do Ensino Básico e Secundário em função de juízos plurais sobre o que é um bom profissional de ensino".
PAP0137 - Sexualidade e género no quotidiano escolar: análise de uma formação contínua para professores/as de 1.º ciclo (EB) e educadores/as de infância
Esta comunicação aborda as questões de género e sexualidade no quotidiano escolar tendo como foco a investigação-ação que realizamos por meio de oficinas de formação com professores/as de 1.º ciclo (EB) e educadores/as de infância para identificar as representações, discutir e adquirir conhecimentos sobre questões de género e sexualidade na docência (com ênfase na análise da prática pedagógica), promovendo reflexão dos/as docentes sobre as suas práticas profissionais e desmistificação de alguns preconceitos que envolvem os papéis dos/as professores/as de 1.º ciclo (EB) e educadores/as de infância, incluindo as suas considerações sobre a sexualidade e o seu papel de género na docência, com a finalidade de que as suas ações para com os seus alunos e as suas próprias considerações se transformem. Portanto, enfocamos a formação do/a professor/a ao incitar reflexões e debates sobre as questões de género e sexualidade sobre como os papéis sexuais e de género ditos normais são construídos socialmente, questões que parecem distantes dos contextos escolares, mas que afloram nos mínimos detalhes da docência, designadamente nos aspectos da profissão considerados femininos (paciência/sensibilidade...) e nos preconceitos divulgados sobre a docência (como da incapacidade do homem para lidar com crianças). Atualmente, o povo português tem várias conquistas legais que atendem a urgência de respostas para as preocupações da sociedade referentes às questões relativas à saúde sexual e reprodutiva, à igualdade de género, ao direito de acesso à contracepção, à generalização do planeamento familiar, à promoção da maternidade e da paternidade responsáveis e conscientes e à garantia da não discriminação em função da orientação sexual, estas estão devidamente enquadradas no ordenamento jurídico de Portugal. Porém, tais conquistas ainda não se revertem em estatísticas igualitárias em questões de género e sexualidade. Por exemplo, a educação sexual ainda é pouco abordada nas escolas. Nas formações que implementamos percebemos que, apesar de investigações recenetes mostrarem que os/as docentes portugueses sentem-se à vontade para abordar esse assunto com os seus alunos, na realidade não estão tão à vontade assim, principalmente por causa da falta de estruturas que apoiem a iniciativa desses profissionais nas escolas, bem como por causa da falta de formação dos/as docentes para estas temáticas. Analisaremos, então, as motivações, representações e dúvidas destes docentes e os debates que surgiram sobre estas temáticas durante a formação.
- RABELO, Amanda Oliveira

Amanda Oliveira Rabelo é Pós-doutora em Ciências da Educação na Universidade
de Coimbra, com projeto de investigação financiado pela FCT, Doutora em Ciências da Educação pela Universidade de Aveiro (2009), mestre em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) (2004) e licenciada em Pedagogia pela UniRio (2000). Atualmente é professora da UFF/INFES (RJ-Brasil). Tem publicações e atua com vários temas da educação principalmente com: formação de professores, género, escolha profissional, sexualidade, história da educação e educação especial.