PAP1002 - Academia, Activismo e Sexualidade: reflexões acerca de uma Sociologia Pública Queer
Apesar de amplamente contestado, o legado positivista continua a produzir efeitos na forma como fazemos sociologia hoje. Tal herança traduz-se nos modos dominantes de recolher e analisar informação, conducentes a resultados fracos, por vezes despiciendos, e com pouca ressonância social e política.
O conceito de sociologia pública, proposto inicialmente por Herbet J. Gans e amplamente desenvolvido por Michael Burrawoy, foi crucial na crítica a uma sociologia tradicional de influência positivista. Com base nesta noção, e claramente inspirada pelos contributos feministas e queer, nesta apresentação sugere-se a possibilidade – e a importância –, de assumir o carácter sempre político de todas as formas de conhecimento, incluindo o conhecimento sociológico. O argumento central é que apenas uma sociologia assumidamente comprometida pode levar a resultados transparentes, relevantes e úteis, em particular na esfera dos estudos sobre sexualidade.
Esta apresentação está dividida em quatro partes. Na primeira parte, consideram-se brevemente para os antecedentes da Teoria Queer, de forma a clarificar contextos e conceitos.
Segue-se uma revisitação do modelo de sociologia pública, enfatizando o seu potencial analítico e político. Subjacente ao conceito de sociologia pública está a premissa de que o conhecimento pode contribuir para processos de inclusão ou exclusão, dependentes da utilização que lhe é dada.
A terceira parte trata dos impactos epistemológicos e éticos de ‘agentes-duplos’, ou seja, de quem assume um duplo estatuto enquanto cientista-activista na esfera dos estudos LGBT/queer. Sugere-se aqui que este duplo estatuto de cientista-activista constitui uma oportunidade para construir e disseminar conhecimento de base empírica, mantendo simultaneamente um sentido de responsabilidade social e empenho político.
Por fim, propõe-se o desenvolvimento de uma Sociologia Pública Queer, uma nova perspectiva crítica que dialoga directamente com a noção de cidadania sexual. A Sociologia Pública Queer reconhece o seu carácter politicamente situado, ao mesmo tempo que contribui para a desconstrução de preconceitos e processos de exclusão e opressão com base na orientação sexual e identidade de género. Defende-se que tal compromisso entre academia e activismo fortalece a acção colectiva, respondendo simultaneamente a desafios que se colocam aos estudos sobre sexualidade no momento presente.