PAP0077 - Vidas excluídas: trajectórias ciganas femininas reflectidas em contexto prisional
Diversas pesquisas realizadas em Portugal,
assim como em países da UE, revelam que entre
os grupos e categorias sociais mais expostos a
situações de exclusão e discriminação sociais
são de destacar os grupos étnicos, em
particular o grupo étnico cigano. Um estudo da
década de 90 realizado em contexto prisional
português indica que a proporção de indivíduos
de etnia cigana atrás das grades representa 5
a 6 por cento da população total reclusa.
Assiste-se, portanto, a uma sobrerepresentação
deste grupo em contexto prisional, que é ainda
mais evidente na população reclusa feminina.
Nesta comunicação, tendo em consideração este
panorama de exclusão e discriminação e de
sobrerepresentação deste grupo em contexto
prisional e conjugando-o com uma perspectiva
de género, propomo-nos a caracterizar
sociologicamente as reclusas de etnicidade
cigana a cumprir pena efectiva num
Estabelecimento Prisional feminino português,
tal como a analisar as suas trajectórias de
vida.
Baseando-nos em trabalho de campo desenvolvido
entre 2010 e 2011, pretendemos explorar as
especificidades ao nível sociológico, criminal
e penal das reclusas ciganas, assim como os
aspectos relacionados com as relações
familiares, para a compreensão das suas
trajectórias. Mapeando singularidades e
aspectos comuns, analisaremos de que forma
cada uma das dimensões se espelha, conjuga e
reconfigura no contexto prisional. Os aspectos
abordados englobam i) o contexto pré-
prisional, sobre o qual se analisam os modos
de vida condicionados, dinâmicas e
configurações familiares, tal como motivações
e constrangimentos estruturais que conduziram
à prática do crime; ii) a vivência prisional,
onde se expõe relações familiares no contexto
prisional (tendo em conta que as redes de
inter-familiaridade podem englobar até 3
gerações de familiares) e que conexões se
evidenciam com as redes em meio exterior; iii)
e as perspectivas futuras das reclusas, que se
prendem com questões mais amplas de exclusão e
discriminação social às quais estas populações
não são alheias.
Gomes, Sílvia
Investigadora no Centro de Investigação em Ciências Sociais da Universidade do Minho. Licenciada em Sociologia pela Universidade do Minho (2008), é estudante de doutoramento no Instituto de Ciências Sociais da mesma universidade, sob as orientações dos Professores Doutores Manuel Carlos Silva e Helena Machado. O projecto de doutoramento tem como título provisório “Criminalidade, Exclusão Social e Racismo: um estudo comparado entre portugueses, ciganos e imigrantes dos PALOP e do Leste Europeu”. No âmbito do projecto de doutoramento, desenvolveu o projecto “Criminalidade, Etnicidade e Desigualdades” junto de Estabelecimentos Prisionais portugueses e foi investigadora visitante na Universidade da Califórnia, Berkeley, sobre a orientação do Professor Loïc Wacquant. O seu trabalho está relacionado com a criminalidade, exclusão social e etnicidade, designadamente as representações sociais dos grupos étnicos e imigrantes nos media, as representações sociais dos guardas prisionais sobre os fenómenos da imigração e do crime e também as trajectórias de vida e estatísticas da reclusão feminina e masculina em Portugal.
Rafaela Granja é socióloga e está atualmente a desenvolver a sua tese de doutoramento que se intitula Representações sobre os impactos sócio-familiares da reclusão: visões femininas e masculinas. É membro do Centro de Investigação em Ciências Sociais da Universidade do Minho. As principais áreas de interesse do seu trabalho centram-se nos estudos prisionais, relações familiares, criminalidade, género e etnicidade.