PAP0049 - Intimidades em (des)conexão com a prisão: as relações amorosas de mulheres antes e durante a reclusão
Os estudos prisionais sobre mulheres reclusas
tendem a negligenciar as configurações e
transformações das suas relações amorosas.
Partindo de um conjunto de entrevistas com 20
reclusas em Santa Cruz do Bispo (Portugal),
nesta comunicação almeja-se explorar as
trajetórias conjugais destas mulheres
reclusas, focando, por um lado, as relações
amorosas no período prévio à reclusão, por
outro, as reconfigurações das mesmas nos
primeiros meses do cumprimento da pena. Estas
evidenciam matizes específicos e singulares –
ao nível dos contextos e motivações que as
envolvem, sobretudo se comparadas às dinâmicas
que tendem a caracterizar as primeiras
relações de namoro e conjugalidade em estratos
sociais mais favorecidos. Partindo de uma
abordagem crítica ao modo como o tema das
relações amorosas de reclusas tem sido
abordado pela literatura, serão analisados
pontos de conexão e desconexão entre estas e
os comportamentos desviantes das mulheres.
Serão explorados fenómenos sociais que
atravessam as relações amorosas destas
mulheres – maternidade, violência, pobreza,
reclusão de companheiros – e as consequências
que cada um destes elementos imprime nas
vivências amorosas, tanto no período que
antecedeu a reclusão, como ao nível dos
impactos que o cumprimento da pena de prisão
teve
nessas mesmas relações.Os nossos dados
evidenciam como as relações amorosas destas
mulheres as conectaram às malhas da justiça e
do sistema penal antes da sua própria reclusão
e independentemente dos seus próprios
comportamentos desviantes. Estes vínculos ao
sistema penal resultam do apoio que estas
mulheres, antes de serem reclusas, prestavam
aos seus companheiros reclusos. Este é um
papel que não se esbate perante a própr
- GRANJA, Rafaela

- CUNHA, Manuela Ivone

- MACHADO, Helena

Rafaela Granja é socióloga e está atualmente a desenvolver a sua tese de doutoramento que se intitula Representações sobre os impactos sócio-familiares da reclusão: visões femininas e masculinas. É membro do Centro de Investigação em Ciências Sociais da Universidade do Minho. As principais áreas de interesse do seu trabalho centram-se nos estudos prisionais, relações familiares, criminalidade, género e etnicidade.
Manuela Ivone Cunha é doutorada em antropologia e ensina na Universidade do Minho. É membro do Centro em Rede de Investigação em Antropologia, pólo CRIA-UM (Portugal) e do Institut d'Ethnologie Méditerranéenne et Comparative (IDEMEC/ CNRS, França). Foi galardoada com o Prémio Sedas Nunes para as Ciências Sociais pela obra, Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos (2002).
Helena Machado
hmachado@ics.uminho.pt
Helena Machado é doutorada em sociologia e professora associada com agregação no Departamento de Sociologia da Universidade do Minho. É membro do Centro de Investigação em Ciências Sociais e do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Os seus interesses de investigação centram-se na área da sociologia da genética forense, da genetização das relações sociais, e das representações mediáticas em torno da tecnologia no combate ao crime. Tem coordenado diversos projetos de investigação sobre esses temas, com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Desenvolve investigação pioneira em Portugal sobre os impactos sociais, jurídicos e éticos da utilização de tecnologia de DNA em contextos forenses.
PAP0050 - Partidas, Largadas, Fugidas. Uma análise da saída de casa dos pais a partir dos pontos de viragem amorosos.
As diferenças de género no timing da saída de casa dos pais ao longo do tempo e do espaço europeu são consistentes. As mulheres
saem mais cedo de casa dos pais do que os homens, padrão em muito justificado (como, aliás, as diferenças entre os países e as
gerações) pela predominância destas na co-ocorrência da saída de casa com a entrada em papéis conjugais. Mas este padrão está a
alterar-se, sobretudo em países onde estas diferenças de género (quantitativas e qualitativas) na saída de casa dos pais são mais
evidentes. Com base em dados com representatividade europeia, pode afirmar-se que é precisamente essa uma das maiores
alterações nas sequências das transições para a vida adulta: a co-ocorrência feminina da saída de casa dos pais com a conjugalidade
tende a diminuir, aproximando-se das trajectórias masculinas (Nico, 2011).
A democratização e a feminização do ensino superior não explicam na totalidade esta recente tendência. Há, para além deste
fenómeno, aspectos relacionados com a “emergência de uma especificidade da individualização feminina” (Thomson, 2009) e com o
facto do período da transição para a vida adulta “ser o mais genderizado de todo o desenvolvimento humano” (Kimmel, 2008) que
simplesmente não são apreendidos através de uma análises ziguezagueantes entre países e gerações, mas sim necessariamente
através de uma metodologia centrada no indivíduo. Com base em 52 entrevistas de carácter biográfico alicerçadas em calendários de
vida, foram analisados os “turning points”, “inerentemente narrativos” (Abbott, 2001), associados a trajectórias e rupturas amorosas
durante o período de transição para a vida adulta, e o seu impacto nos processos de saída de casa dos pais e de redireccionamento do
curso de vida. Foram encontrados efeitos de género vários no impacto que o processo e rupturas amorosas têm na emancipação
residencial dos jovens adultos. Algumas evidências apontam, portanto, para uma dicotomização da ”especificidade da individualização
feminina” dos processos de transição para a vida adulta em Portugal.
- NICO, Magda

Magda Nico, Investigadora de Pós Doutoramento do CIES - Instituto Universitário de Lisboa, actualmente a desenvolver um projecto sobre gerações, cursos de vida e mobilidade social.
Autora da tese de doutoramento "Transição Biográfica Inacabada. Transições para a Vida Adulta na Europa e em Portugal na Perspectiva do Curso de Vida", desenvolvida no CIES-Institutito Universitário de Lisboa.
Os principais interesses de investigação e temas de publicações são: Metodologias do Curso de Vida, Transições para a Vida Adulta e Mudança Social, Saída de casa dos pais, Gerações, Género e mais recentemente Mobilidade Social.
PAP0171 - Sobre(Viver) com Violência… Um olhar sociológico sobre a construção de trajectórias de violência de género nas relações amorosas
A violência interpessoal, sobretudo quando ocorre nas relações amorosas, raramente é um acto isolado, repete-se ciclicamente configurando trajectórias de violência que, quando vividas no feminino, tendem a prolongar-se no tempo.
Esta comunicação sintetiza resultados da investigação de doutoramento da autora que procura comparar dois cenários de vitimação – a feminina versus a masculina – e dois modos distintos de experienciar violência – mulheres e homens vítimas com trajectórias, versus, sem trajectórias de vitimação.
A informação utilizada deriva do aprofundamento de parte dos dados do Inquérito Nacional Violência e Género, realizado pelo CesNova, em 2007 e dizem respeito, unicamente, ao total de vítimas que sofreram pelo menos 1 de 52 actos de violência física, psicológica e/ou sexual. Para identificação das trajectórias, consideraram-se não só casos de mulheres e homens que referiram ter sido vítimas de violência no último ano e/ou em anos anteriores à aplicação do inquérito mas, também, situações que apesar de mencionarem não o ter sido, contradizem-se ao afirmarem, adiante, ter sofrido actos de violência na infância/adolescência, às mãos dos próprios pais.
Nesta linha de raciocínio consideramos que os laços amorosos se estabelecem ao longo do processo de socialização e a forma como são mais ou menos consolidados, deve constituir um dos factores a ter em conta no estudo dos motivos que levam as vítimas de violência no âmbito das relações amorosas (parentais e/ou conjugais) a seguir determinada conduta ao longo da vida – de sujeição (permanência) ou de resistência (abandono) face à relação com o ofensor e à situação abusiva.
Assim, num universo de 1000 mulheres e 1000 homens inquiridos, obtiveram-se 397 mulheres e 435 homens vítimas. Embora, em termos gerais, o peso deles seja superior ao delas é, em contrapartida, bastante inferior relativamente à existência de trajectórias de vitimação (M: 54%; H: 27%), o que significa que estamos perante violências de natureza diferente: nas mulheres, geralmente acontece reiteradamente, em casa, exercida por parceiro ou outros familiares, nomeadamente, pais/padrastos, tendo na sua configuração desigualdades de género; nos homens, é uma vitimação semelhante à que verificamos na população em geral, maioritariamente perpetrada por outros homens, em espaços públicos, sem reiteração e que quando surge associada a papéis de género, visa reforçar a masculinidade. Somente na infância/adolescência, os homens tendem a apresentar trajectórias de vitimação, causadas pelos pais/padrastos, enquanto que as mulheres prolongam-nas pela idade adulta, exercidas pelos pais, parceiros íntimos, ou por ambos: os dados da investigação mostram que entre o total de mulheres vítimas de violência no contexto das relações amorosas, 74,6% apresentam percursos de vitimação continuada.
- BARROSO, Zélia