PAP0939 - Religiosidade e bem-estar em idosos portugueses
O aumento sustentado da esperança média de vida e a diminuição da natalidade nos países europeus conduziu-nos a um processo acentuado de envelhecimento da população com consequências socioeconómicas preocupantes neste contexto de crise. Têm sido desenvolvidos diversos estudos sobre a população idosa, sendo feitas várias abordagens sobre as suas condições, formas de vida e alterações nos seus hábitos e costumes. Muitas investigações deram ênfase à importância da religião para conseguir enfrentar os desafios da idade, como o isolamento social, o enfraquecimento cognitivo, a dor, a incapacidade física e a tomada de decisões acerca dos cuidados no fim da vida. De acordo com vários autores, os recursos encontrados na religião atuam diminuindo a depressão, a ansiedade, o abuso do álcool, a solidão e mesmo o suicídio, situações comuns na população idosa. Neste contexto de crise, atualmente instalada, parece pertinente analisarmos a religiosidade e a vivência dos rituais enquanto promotores de sentimentos próssociais, de união e bem-estar. Este trabalho de campo foi desenvolvido no âmbito de uma investigação de pós-doutoramento e analisa a relação entre a religiosidade (organizacional e não organizacional e atitudes face ao cristianismo) e o bem-estar (satisfação com a vida e afetividade positiva e negativa e solidão) num grupo de 187 idosos portugueses a residir na região de Lisboa e Santarém. A religiosidade refere-se ao grau de ligação e aceitação que cada indivíduo tem face à instituição religiosa e à forma como põe em prática as suas crenças e rituais. Verificou-se que as mulheres têm atitudes mais favoráveis ao cristianismo, rezam e sentem mais a presença do divino e maior bem-estar existencial mas mais solidão do que os homens. Os idosos com atitudes mais favoráveis ao cristianismo, que rezam ou meditam mais, sentem maior bem-estar espiritual (religioso e existencial) e mais satisfação com a vida, apreciando-a e acreditando que a relação com Deus contribui para a sensação de bem-estar. Também revelam mais afetos positivos (dizem ser mais entusiasmados, interessados e fortes, ativos, atentos, inspirados e emocionados). Os idosos que frequentam mais a igreja ou outro local religioso sentem menos solidão.
Ana Maria Veríssimo Ferreira
Professora convidada na Escola Superior de Educação de Lisboa, Vice-Presidente da Direção do Agrupamento de Escolas General Humberto Delgado, bolseira de pós-doutoramento em Psicologia (Religiosidade e Bem-estar) da Fundação para a Ciência e Tecnologia, na Fac. de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Tem 30 anos de serviço como professora do ensino básico, secundário e superior. Trabalhou na ANQ – Agência Nacional para a Qualificação, Ministério da Educação. Doutorou-se em Ciências da Educação pela Universidade Aberta (2006) na especialidade de Educação Intercultural e Mestrado em Relações Interculturais (Universidade Aberta, 1997) Investigadora nos Projectos da FCT: “Juventude Imigrante: Aculturação e o paradoxo de adaptação em Portugal” e “Perdão e Amnistias: Perspectivas Europeias, Africanas e Asiáticas”. Colaboração em livros e publicação de artigos em revistas da especialidade em Portugal e no estrangeiro.
E-mail: ana@jaf.pt
PAP0203 - Religiosidades e juventude universitária: algumas reflexões
Este trabalho pretende discutir as recentes alterações no âmbito religiosos entre a juventude universitária brasileira. Torna-se necessário estudar o papel que as múltiplas religiosidades, manifestadas dentro das universidades, desempenha na vida acadêmica de estudantes e as influências na sociedade. Do desencantamento do mundo proposto por Weber, e de previsões agonizantes das religiões, tem-se na sociedade, hodiernamente, um reencantamento do mundo, inclusive pela juventude, para espanto de muitos. Em períodos de pós-modernidade, um novo e revigorante fôlego vem sendo dado às diferentes maneiras de se relacionar com o religioso. O que outrora deixou de ser atribuído ao divino devido a processos de racionalização do pensamento e do conhecimento passa, novamente, a ter sua importância transcendente. Com isso, é possível constatar uma proliferação de um grande número de modalidades religiosas no Brasil, e como já relatado, no meio universitário. De caráter mediúnico como o espiritismo, as religiões afro-brasileiras, as pentecostais e católicas carismáticas, ou mesmo outras cristãs mais tradicionais (protestantes históricos), orientais, esotéricas, dentre outras, cada uma oferece diferentes alternativas sacras. Há uma gama variada de crenças e ritos relacionados às forças sobrenaturais (podendo haver a manipulação destas) e às intervenções dessas divindades no almejado bem-estar. Mesmo entre jovens, em décadas passadas tidos como militantes políticos, desinteressados pela religião, ela está bem viva e atuante, tanto na esfera privada quanto na pública, revigorada em suas diversas e múltiplas epifanizações. Até mesmo, e cada vez mais, no ambiente que se cobrava cético, racional e científico: as universidades. Essa “cientificidade” presente nas universidades, extremamente valorizada, requerida e cobrada atualmente, pode ser considerada reflexo de objetivos apresentados no último século, época tida como a da razão. Período que buscava e anunciava uma hegemonia da ciência e maneiras de explicar o mundo inteiramente desencantadas, já desprovidas da necessidade de apelo à magia, ao sobrenatural, às explicações que escapam do controle racional. Entretanto, as universidades brasileiras estão repletas de grupos religiosos que se reúnem para orar, cantar, missionar, entre outros, ocupando diversos espaços. Estes grupos trazem consigo, além de suas crenças, valores e culturas, inquietações. A universidade, enquanto espaço de desdobramentos de processos de escolarização e de formação profissional, sofre interferências inúmeras, de diversas ordens sociais, culturais e políticas. E dentre essas, são afetados também pela religião, pelas crenças do indivíduo, uma vez que, como visto, a religiosidade pode estabelecer poderosas, penetrantes e duradouras disposições e motivações no ser humano; ajustar as ações, os comportamentos e conduzir condutas.
Marcos Filipe Guimarães Pinheiro é licenciado em Educação Física e Mestre em Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente é professor nos cursos de Pedagogia, Música e Educação Física do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix e professor substituto nos cursos de Fisioterapia, Terapia Ocupacional e Educação Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ambos na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Suas principais áreas de interesse são o Lazer, Religiosidades e Velhice.