PAP1371 - As linhas de montagem teleoperacionais no mundo dos call centres
Na transição para o século XXI, a agressividade do mercado económico em prol da maximização da produção desembocou no crescimento do desemprego reforçando as situações de precariedade e flexibilização global que se traduzem numa corrosão do carácter (Sennett, 2001). Afetados por uma crise identitária que se carateriza por um novo sentimento de alienação e/ou frustração do próprio trabalho, outrora passaporte para o direito à cidadania e liberdade, assistimos à criação de uma nova geração de ciberproletarios (Antunes; Braga; 2009). Na verdade, a sociedade atual tende a manter uma determinada representação da inserção social através do emprego estável. A procura pela sobrevivência passa pela aceitação de qualquer oferta de emprego, pouco ou nada relacionado com a sua área de formação.
Na transição para o século XXI as empresas de call centre passaram a representar o papel de embaixadoras do trabalho atípico, funcionando como um dos únicos meios de eventual integração no mercado de trabalho. As desigualdades consequentes da globalização económica não se verificam apenas no desemprego mas no próprio seio do emprego, nas entidades empregadoras que seguem actualmente lógicas de flexibilização e que se repercutem entre os trabalhadores por meio da opressão e exploração, gerando mecanismos de consentimento ou resignação (Burawoy, 1979). Os trabalhadores com receio de vir a perder o pouco que possuem mergulham em lógicas de consentimento e resignação, quer em relação ao trabalho em si quer ao poder incutido pelas chefias. Existe uma repressão silenciada por parte dos trabalhadores que permanecem enclausurados num invólucro de terror diário com receio de perda da pseudo-segurança que possuem.
Através das páginas de um diário de campo “precário”, redigido no âmbito de uma investigação etnográfica vivida na primeira pessoa, pretende-se relatar o dia-a-dia dos jovens adultos licenciados de Coimbra, representação simbólica nacional da vida estudantil. Narrativas precárias são relatadas de modo a revelar como o somatório de obstáculos incorporados num poder despótico, por vezes inumano, exercido na figura do call centre, conduz ao desenvolvimento de uma identidade incerta por parte do operador que se vê obrigado a viver num quadro de readaptação constante. Como súmula do estudo, constatou-se que, de facto, trata-se uma realidade que se pretende breve e/ou temporária mas que, com as dificuldades que o actual cenário de capitalismo desenfreado coloca, tem assumido contornos permanentes.
Isabel Roque, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e o Centro de Estudos Sociais de Coimbra (isabelroque@ces.uc.pt)
Interesses de investigação: Metamorfoses e Relações Laborais; Desigualdades Sociais; Movimentos Sociais; Trabalho e Organizações; Culturas de Empresa, Negociação e Conflito; Call Centres
Biografia Académica:
2001 – 2006 - Licenciatura em Sociologia na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Orientador: Professor Doutor João Arriscado Nunes
Dissertação: “O processo de socialização em Coimbra: igreja católica e a igreja protestante”.
2007 - 2009 - Mestrado em Sociologia - Relações de Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
Dissertação: “As linhas de montagem teleoperacionais no mundo dos call centers: um retrato local numa moldura transnacional”. Orientador: Professor Doutor Elísio Estanque
2010 - presente - Doutoramento em Sociologia - Relações de Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
Dissertação: "A precariedade licenciada: vivências do emprego precário de longa duração no sector das telecomunicações". Orientador: Professor Doutor Elísio Estanque
Artigos em atas de eventos
Roque, Isabel (2008), "Trabalho e precariedade no sector das telecomunicações: uma experiência local num quadro transnacional", VI Congresso da Associação Portuguesa de Sociologia – Mundos sociais: Saberes e práticas, In Atas do VI Congresso da Associação Portuguesa de Sociologia – Mundos sociais: Saberes e práticas, Lisboa.