PAP0746 - Entre a profissão e a comunidade académica: Contributos para uma caracterização sócio-organizacional
A profissão académica foi apelidada em 1969 por Harold Perkins de ‘profissão-chave’. O autor pretendia com esse termo, enfatizar a influência e o papel central destes profissionais na sociedade em geral. A associação da actividade académica a uma ‘profissão’ tem sido amplamente discutida na literatura (Altbach, 2000; Askling, 2001; Becher, Trowler, 2001; Enders, 1999; 2001). Tendo por referência o contexto anglo-saxónico alguns autores criticam a existência de uma ‘profissão’ académica dado que não lhe reconhecem a existência de boa parte das características associadas às profissões na literatura do campo (Brennan, Locke & Naidoo, 2007). Com isto não pretendemos argumentar a recusa da utilização do termo ‘profissão académica’, mas, pelo contrário, defendemos uma discussão comparativa do termo em relação ao conceito de ‘comunidade académica’. A ‘comunidade académica’, baseada no ethos mertoniano e no próprio conceito de ‘profissão académica’, emerge na sociedade portuguesa como errática (Sousa, 2010) não sendo claro quem constitui a comunidade académica e como se caracterizam os académicos. Tal carácter errático permite-nos enfatizar a única dimensão em comum a todos os académicos: o conhecimento. Seja ele relativo à sua transmissão (na docência), produção (na investigação), difusão ou aplicação (no serviço).
Não obstante a problemática em torno da sua classificação os académicos têm, nos últimos anos, enfrentado desafios importantes decorrentes do impacto das alterações da sociedade em geral e, de forma mais particular, das mudanças nas Instituições de Ensino Superior (IES). Face aos desafios colocados por estas alterações os académicos são cada vez mais interpretados como meros assalariados, em lugar de ‘profissionais de elite’ (Carvalho, 2011; Musselin, 2004; 2008; Carvalho, 2011).
Em Portugal os estudos neste domínio são relativamente escassos (Sousa, 2010, 2011; Meira-Soares, 2001; Santiago & Carvalho, 2008; Carvalho & Santiago, 2010). Assim, é objectivo desta comunicação contribuir para a discussão desta problemática usando os conceitos de profissão académica e o de comunidade académica para caracterizar o corpo de profissionais das instituições de ensino superior em Portugal. Para que se inicie uma discussão mais profunda sobre esta temática importa saber quem são os académicos em Portugal. Esta análise é empiricamente suportada pela discussão de dados quantitativos provenientes de uma base de dados compilada pela Agência Nacional de Avaliação e Acreditação no Ensino Superior (A3ES) relativa a docentes do ensino superior português. A comparação com estudos anteriores permite-nos analisar e discutir o sentido da evolução deste grupo profissional no contexto nacional.
BIOGRAFIA
Teresa Carvalho é professora auxiliar no Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro. Licenciada em Sociologia pela Universidade de Coimbra, Mestre em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade do Minho e Doutorada em Ciências Sociais pela Universidade de Aveiro. É investigadora no Centro de Investigação e Políticas do Ensino Superior (CIPES). É membro eleito da Comissão Executiva da RN19 – Sociologia das Profissões da ESA (European Sociological Association).