PAP1427 - 15 de Outubro: o discurso dos protagonistas
Apesar de não configurar uma dimensão esmagadoramente frutífera na
investigação em sociologia, o tema dos movimentos sociais representa
actualmente um campo de considerável produção científica – em
particular a partir da sua expansão nas décadas de 60 e 70 do séc. XX,
com o desenvolvimento de múltiplas discussões sobre as condições da
sua emergência, a sua natureza ou as dinâmica sociais em que se
inscrevem. A actual conjuntura favorece a emergência de “antigos” e
“novos” movimentos sociais, muitas vezes marcados por acções públicas
de protesto com forte mobilização colectiva – tendência ciclicamente
observável nas últimas décadas, acompanhando de forma recorrente
períodos de crise económica mais ou menos profunda. Neste sentido, não
parece demasiado arriscado apontar o ano de 2011 como um período de
importantes acções de protesto, com múltiplos níveis de impacto no
funcionamento de diferentes áreas da vida social, incluindo o direito.
Ainda se recordam facilmente acções locais e transnacionais como as de
2009 na Islândia, 2010 na Grécia e a partir do final de 2010 e durante
2011 de forma mais global – da “primavera Árabe” ao “anti-governo”
russo, passando pela “geração à rasca” portuguesa, “indignados”
espanhóis e “ocupantes” norte-americanos – muito apoiadas no recurso a
novas tecnologias e redes sociais virtuais, invocando “perda de direitos”,
exigindo que “os direitos e deveres dos cidadãos estejam assegurados” ou
pedindo atenção para a violação de “direitos laborais” ou “direitos
humanos”.
A presente comunicação decorre de um estudo mais alargado sobre o
tema, apoiado nas discussões teóricas de Luhmann (1989, 1993 e 1996),
Habermas (1981) e Hellmann (1996 e 1998) sobre movimentos de
protesto, assumindo como objecto central o que se reconhece em
Portugal como a plataforma “15 de Outubro”, subscrita por 39
movimentos sociais com diferentes dimensões e formas de organização. A
actualidade do tema funciona simultaneamente como elemento facilitador
e condicionante – justificando a importância de uma observação
sociológica, mas exigindo cuidado na abordagem a dinâmicas muito
recentes e imprevisíveis, tanto na sua emergência e desenvolvimento
como na sua volatilidade. Esta condição indica o caminho de uma análise
de natureza mais exploratória, tendo-se privilegiado como foco principal
o discurso apresentado pelo referido grupo.
Metodologicamente, procura-se assegurar a representatividade desta
plataforma, recorrendo a documentos publicados por cada um dos
subscritores – manifestos, cartazes, comunicados e outros. Mobilizando
métodos de análise documental, linguística e semiótica visual, procuram-
se interpretar diferentes categorias de expressão escrita e visual que
permitam a sistematização de uma primeira análise sobre percepções face
ao(s) direito(s) - que direitos reivindicam? que instrumentos mobilizam? a
que objectivos se propõem? que relação com a autoridade?