PAP0957 - Lógica do concreto, lógica do significado: assimilações nuançadas de objetos e modos na obra de Gilberto Freyre
A intensidade e extensão dos contatos entre culturas, tornados contemporaneamente mais freqüentes e velozes, ainda que não menos conflituosos e complexos, têm levado sociólogos a buscar modos de olhar mais generosos à capacidade dos povos em criar maneiras próprias de assimilação do Outro. A variedade das formas de tais contatos – imitação, apropriação, tradução, transculturação, hibridização, entre outros – depende de como a "lógica do concreto" se relaciona com a "lógica da significação" em cada encontro entre sistemas de categorização (Sahlins). Um olhar atento deve ser capaz de rearticular as polaridades criadas pelas próprias ciências humanas, para explicar a estabilidade, bem como a mudança social, a partir da (re)ligação entre mundo material e imaterial, visível e invisível. Parte da obra de Gilberto Freyre, talvez menos conhecida do que a clássica trilogia do autor – Casa Grande e Senzala (1933), Sobrados e mucambos (1936) e Ordem e progresso (1959) – oferece este olhar, sob o qual se desvelam nuançadas trocas entre sociedades que comportam distintas visões de mundo. Neste trabalho, que é apenas uma parte da tese de doutorado em desenvolvimento, constitui objeto de estudo a análise de Freyre das influências francesa e britânica sobre a cultura brasileira nos livros Um engenheiro francês no Brasil (1940) e Ingleses no Brasil (1948). Em tais obras, o foco de análise recai sobre a influência técnica e material transmitida cotidianamente por personagens "menores", figuras na aparência as mais humildes, da história íntima brasileira. Aqui, as trocas culturais, ainda que enredadas por relações de poder – tendo em vista o estado avançado das “carboníferas” culturas estrangeiras em relação à brasileira, impregnada de Orientalismos – jamais ocorrem como via de mão única. Este aspecto da obra de Freyre ressalta criativos processos de tropicalização que ocorrem num tipo de "revolução macia", e tem sido ressaltado em anos recentes não somente por constituir o “coração” e o foco de maior atenção internacional de sua obra (Pallares-Burke, 2011), mas também por sua proficuidade no debate atual. Esta "revolução branca" e de mão dupla se difere do diagnóstico vislumbrado ao final de Sobrados e mucambos, em que a reeuropeização do Brasil aparece como estetização totalizadora, oposta ao equilíbrio de antagonismos próprio à assimilação luso-tropical. É este tipo de revolução que pretendemos capturar em tais obras, revolução que fez Freyre vislumbrar, de maneira entusiástica, o futuro do Brasil como nação exemplar ao mundo, triunfando, na trilha dos britânicos, “nas artes de combinar e fazer interpenetrar contrários”.
Isabella Mendes Freitas
Doutoranda em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro desde 2010, sob orientação do professor Dr. Ricardo Benzaquen de Araújo. Desenvolve atualmente, em sua pesquisa de tese, investigação sobre os impactos materiais e imateriais da presença estrangeira no Brasil e as formas brasileiras de acomodação de tais influências, a partir da interpretação de Gilberto Freyre em obras específicas sobre o tema. Tem graduação em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa e mestrado em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Nessas instituições, realizou pesquisas a respeito do tema da urbanização e da condição do estrangeiro a partir da interpretação de Georg Simmel e Walter Benjamin, a partir de representações do cinema latino-americano. Com estes dois autores, procurou desenvolver estudos a respeito de uma perspectiva sociológica estética.