PAP1259 - A crise económica e os problemas do discurso “globalista” e/ou “europeísta”: oportunidade para um regresso à democracia?
Num contexto em que o discurso “globalista” se tornou largamente hegemónico, quer na versão “optimista” oficial e dominante, quer em versão subalterna e “alter-globalista”, é importante começar por destacar o carácter largamente mítico do mencionado discurso, o qual se reporta de facto muito mais às realidades culturais e políticas do que às económicas, e de resto assumindo em geral uma validade estritamente “performativa”: trata-se de um discurso “verdadeiro” na medida e apenas na medida em que os agentes se convençam da sua “verdade”, comportando-se em conformidade com essa convicção e “fazendo-o” nesse sentido verdadeiro.
Uma das consequências políticas da hegemonia do discurso “globalista” é, entretanto, a inegável crise do Estado-nação e o nadir atravessado pelo próprio conceito regulador de soberania. Este nadir da soberania corresponde obviamente a um processo de marcada des-emancipação política, no qual as instituições políticas democráticas são tendencialmente esvaziadas de conteúdo, seja em nome da alegadamente inevitável race to the bottom da fiscalidade, dos salários e da intervenção económica estatal em ambiente de “economia aberta”, seja em nome duma putativa “sociedade civil global”, à qual manifestamente não corresponde qualquer expressão política própria directa, mas que seria de acordo com algumas narrativas o veículo de universalização da “liberdade negativa”, ou “liberdade dos modernos”, ou seja, a liberdade relativamente à interferência de qualquer instância estatal.
Este discurso constitui obviamente uma enorme tartufferie, entre outras razões porque a perda de “liberdade positiva” em nada contribui para o reforço da “liberdade negativa”, mas também porque as tendências “globalistas” veiculam agendas marcadamente imperiais… e imperiais não num sentido “negri-hardtiano”, supostamente “abstracto”, mas imperiais com uma base marcadamente nacional: norte-americana, ou europeia ocidental. Entretanto, as populações europeias tornaram-se elas próprias, através do intento “public choice” de fabricação duma moeda única, vítimas duma colossal engenharia política destinada à constituição de um centro decisório unificado e “livre de ciclo eleitoral”, que é o que desde a origem subjaz ao “projecto Euro”.
A crise posterior a 2008, entretanto, parece estar a contribuir para acordar os povos europeus do sono profundo (ou da hibernação política) em que o ópio “europeísta” as tinha mergulhado…
Nome completo: João Carlos de Andrade Marques Graça
Filiações institucionais: Professor auxiliar com agregação do ISEG-UTL, Instituto Superior de Economia e Gestão, Universidade Técnica de Lisboa; investigador do SOCIUS, Centro de Investigação em Sociologia Económica e das Organizações, ISEG-UTL.
Áreas de Interesse: sociologia económica, sociologia política, sociologia histórica, teoria social.